Querer quem sou não chega

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Fotografia @ Pixabay | Cartaz © Laura Almeida Azevedo

Querer quem sou não chega.

O que espanta, para descobrir ser, tarda, enredado no camuflado que confunde os sentidos. Os olhos não vislumbram o que receiam ser incapazes de alcançar. Duvidam. O coração bate e tudo o que pressente ser silencia, desgastado. O desânimo é o alento nos dias que se negam a revelar o que tanto quero. Desconheço a morada e o desnorte toma conta do meu ser, aprisionado nas catacumbas de um coração descompassado. As feridas que os grilhões causam desdenham do desejo maior de querer ser quem sou.

Porque já me faltam as forças, escolho aceitar a frieza da dor infligida, sem suspeitar de como ela me pode abalroar, traiçoeira.

Falta-me a coragem.

Querer quem sou tarda, quando o ruído encanta, mentiroso. Só a alma se sobressalta com o adiar de mais um dia.

Ficar. Em silêncio.

Misterioso, segreda-me que não estou só. A contemplação aclara o óbvio, mas não entrega o ser que sou. A coragem espera-me. Paciente.

Querer quem sou. Só.

A folhagem distrai. Esconde os corações palpitantes que saltaricam por entre os ramos frescos. Livres. Livres de ser, sem amarras ao tempo que retém o que eleva. Talvez o tempo não chegue para o que carece crescer. Sempre o tempo. Dói a espera, enquanto os ponteiros do relógio negam o direito ao descanso. Tal como uma onda, que devagarinho cresce, cresce, revolta, a vontade de ser.

Livre. Única.

E, enquanto só quero quem sou, cobarde, escolho partir. Partir para outro lugar onde a ausência do que conheço acalma. Lá tudo é uma possibilidade e nada é presente. E, por instantes, sou quem na ilusão permanece por não ficar.

Querer quem sou está tão mais perto do que o destino para onde desejei partir.

A viagem protela quem sou e o futuro, precipitado, retorna ao presente. Ao tempo de ser. Cresce a coragem quando digo que sim. Quando o presente dói, a folha de papel faz magia. Caem sonhos de rompante e o corpo trépido vibra. O desejo extravasa. Cada um deles ilumina todo o meu querer. E, antes que se estatelem no chão, uma mão carinhosa apanha cada um deles, com a perícia de que só é capaz quem muito quer.

A guarda cai e todo o meu querer ser tona-se absoluto.

O inesperado é um sorriso que não se contém.

A esperança renasce e a fé faz acreditar que nada é o início de tudo o que até então faltou.

A luz do entardecer amorna o rosto que pende cansado.

A noite estende o leito que aconchega carinhosamente o desejo de ser.

Amanhã, voltarei a querer tanto ser que querer nada tornar-se-á uma miragem. O tempo não prende mais o que se tornou impossível de suster.

Às vezes, a felicidade é tudo o que resta quando nada fica. A felicidade de ser tudo o que, um dia, o sonho traiu.

Ser tudo o que não rasga a alma.

Porque ela é demasiado preciosa para deixar de querer.

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ANA SANTOS, a gaivota
A vida fez com que ousasse pegar numa caneta e num caderno e nele viajar pelo mundo das palavras escritas sonhadas. Primeiro a medo, depois com menos receio, deu por si a relembrar-se do prazer que já em criança sentia pela escrita. Com uma licenciatura em Físico Química, não causará estranheza que a natureza seja o seu porto de abrigo. Adora estar em contacto com a natureza e é nela que encontra algumas respostas para os seus desassossegos, sem se sentir culpada, mas sempre abraçada.