Hoje, vi a saudade na estrada

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Fotografia @ Pixabay | Cartaz © Laura Almeida Azevedo

Hoje, quando vinha na minha viagem da Beira para o Alentejo, bem a meio da IP2, não se vislumbrando nenhum lugarejo por perto, vi caminhar a bom ritmo uma senhora de provecta idade. A forma como se apresentava e andava demonstraram-me, com alguma facilidade, que me encontrava perante uma senhora idosa. Não pensem que a senhora que caminhava em bom ritmo o fazia por uma questão de prática de exercício físico. Pelo menos. nada me leva a crer que seria essa a razão do caminhar. Nada de outfits desportivos e coloridos da moda, nada de bons ténis. Muito pelo contrário (e assumo que foi isso que me fez abrandar e olhar duas vezes para esta senhora).

A senhora, que caminhava apressada, apresentava-se integralmente vestida de negro.  Com aquelas saias a meia perna, a que se sobrepôs um daqueles aventais que se atam à cintura. Acompanhava a saia e o avental o que me pareceu ser uma camisola, igualmente preta. As pernas, de certeza imaculadamente brancas por raramente (ou quiçá, nunca) terem visto sol, eram tapadas por meias pretas. O todo era completado por uns sapatos pretos e um lenço na cabeça, também ele, preto. E assim caminhava aquela senhora, debaixo do sol da manhã, apoiada numa bengala, em sentido contrário ao meu, dirigindo-se sabe Deus para onde.

O que me fez abrandar e observar tanto esta senhora? Fácil… a saudade. No momento em que vi aquela senhora de preto vestida, ligeiramente curvada, apoiada na sua bengala, mas caminhando a bom ritmo, senti-me imediatamente transportada para o tempo em que as minhas avós eram vivas. Apesar de nada parecidas (uma era pequena e magra, a outra alta e mais opulenta), ambas as minhas avós (pelos desgostos que a vida lhes trouxe) trajavam assim de negro como esta senhora. Verão ou inverno, pouco importava e poucas alterações havia na roupa que usavam. Nunca as vi sem umas meias que as cobrissem, pelo menos, até aos joelhos. Como dizia a minha avó Antónia: «O que tapa o frio tapa o calor, filha!»

Quando me imagino como uma senhora idosa (sim, eu faço esse exercício!), nunca o faço imaginando-me parecida com as minhas avós. Pelo contrário, penso em mim como aquela avozinha bem-disposta que não tem qualquer problema em continuar a usar cor-de-rosa ou roxo! Mas a verdade é que esta senhora, trajada de negro, me fez lembrar as minhas avós. Ambas, tal como a maioria das mulheres que se vestiam de negro, eram mulheres do campo, donas de uma força física e psicológica invejável, que encaravam todos os dias como uma luta a travar e a vencer. Eram mulheres lutadoras, de fibra, um dos pilares da família. Tal como esta senhora, também elas se metiam à estrada (muitas vezes, com cestos à cabeça, que mantinham num milagroso equilíbrio), não apresentando dificuldades em calcorrear quilómetros a fio. Lembro-me da confusão que me causava, quando chegava de terras gaulesas para umas férias por cá, a imagem deste bando de mulheres vestidas de preto. Lembro do difícil que foi ver as minhas avós começar a envergar essa cor para nunca mais a largar. Mas a verdade que é essa a imagem que me ficou.

E, hoje, ao ver aquela senhora a caminhar, foi como se as visse, a ambas, por aquela estrada. Assumo que, por momentos, o coração se apertou de saudade. Mas, em seguida, veio o sorriso, a lembrança daquelas duas senhoras tão diferentes, mas que tão importantes foram na minha vida, e a lembrança dos muitos bons momentos que passei com elas. Agradeci o facto de ainda existirem pessoas a trajar desta forma e o facto de me ter cruzado com ela, por me permitir essa viagem a bons momentos que já se foram.

Pensando sobre o assunto, concluo que, provavelmente, nunca serei uma destas senhoras de idade toda trajada de negro. Verifico que esta forma de vestir é uma imagem do nosso país que está, paulatinamente, a desaparecer. Não deixo de sentir pena por isso. Mas, apesar de achar que não teremos herdado essa forma de vestir e de expressar a tristeza, espero que tenhamos herdado de todas “as nossas avós” a força e a coragem de viver que elas não deixam de representar.

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ESTEFÂNIA BARROSO, Steff — a alma sonhadora
Professora. Gosta de verão e de calor. Gosta de animais — sobretudo, de gatos. Gosta de uma boa história. Por isso, gosta de cinema e de literatura. Apreciadora de café porque precisa e de vinho porque merece. Sonhadora, sempre. Acredita, como diz o poeta, que «O sonho comanda a vida». Tem um blog: «Steff’s World – A soma dos dias».