«Amo-te»

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Fotografia @ Pixabay | Cartaz © Laura Almeida Azevedo

Queria gritar o seu amor aos sete ventos. Queria dizer-lhe, alto e em bom som, que o amava. Mas as palavras não saíam. Prometia a si mesma que diria hoje, mas passava-se o amanhã e o depois, e não conseguia.

Será que não o amava? Não, não era isso.

O que a travava era o medo. Medo de que, quando o verbalizasse, tudo assumisse outras proporções. Algo de demasiado grande para si. Como se estivesse a gravar algo na pedra, algo sem reversão possível. Como se estivesse a assumir um compromisso para a vida, sem volta. Como se isso fosse possível. Estupidez sua. Óbvio que não era isso que a vincularia ao que quer que fosse.

Ele merecia ouvi-lo. Se era sincero, qual era o problema? Se o que sentia não era amor, então não conseguia imaginar o que é que podia ser.

Dizia-o tantas vezes, em pensamento ou em surdina, mas quando ia dizê-lo em voz alta congelava. Como se ficasse ali um amo-te no ar, preso. Era um amo-te mudo, que calava, que teimava em não sair.

Mas porquê? O que é que a assustava? O que é que receava?

Seria vergonha? Seria? Nunca o tinha dito a alguém. Se calhar, era isso.

Escrevia tantas vezes que o amava nas mensagens que trocavam. Porque é que a forma fazia diferença? O que diferenciava o amo-te escrito do falado?

Seria porque tinha medo de se emocionar, ficar com um nó na garganta ou com uma lágrima no canto do olho?

Mostrava que o amava de tantas maneiras. Nos seus gestos, nas suas atitudes, nas suas ações. Mas, se ela gostaria de ouvi-lo, ele também gostaria, certo? Ou será que isso o assustaria? Não, não podia ser. Ele também demonstrava que a amava. Todos os dias.

Tinha que arranjar coragem. E voz.

Um simples «amo-te». O que tem de tão difícil?

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ANA PEREIRA, a inquieta
Nasceu numa noite estival, mas tem alma outonal. Convive com os números, mas encontra refúgio nas palavras. Aparenta serenidade, mas governa-a uma mente deveras inquieta. Se lhe perguntarem, é assim que se define a si própria. Aliás, estas foram palavras dela.