Inquietude

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Fotografia @ Pixabay | Cartaz © Laura Almeida Azevedo

A quietude do tempo deixava-o inquieto, quando, no silêncio, tropeçava contrafeito.

Pairava sem norte, dominado pelos ventos que o atormentavam. Acreditava que a leveza procurava-o sem o encontrar. Talvez estivessem tão próximos que não se reconhecessem.

Assim que estendia as mãos, os dedos não se entrelaçavam.

Queria o seu toque que o acalmava. Queria o sussurro que o fazia sorrir, na ilusão de que nada mudara. Tudo em si se revoltava, demovendo-o de sossegar.

Na quietude da noite, a fogueira crepitava provocadora. Sonhava com ela, que não chegava. As chamas exasperadas cresciam, procurando-a sem alcançar o encontro desmarcado pelo tempo. As chamas ondulavam, num vaivém indeciso que duvidava do rumo a perseguir.

Desejavam o corpo que esquecera o seu.

As chamas serpenteavam na inconstância que, em si, ardia. Nelas ouvia apenas a ausência das palavras que não diria. Depressa as esqueceu porque a turbulência das chamas, que o arrebatavam, deixavam-no só com o silêncio que o desinquietava.

A natureza etérea das chamas insistiam em confundi-lo. Nada, à sua volta, lhe parecia real. As imagens chegavam-lhe disformes e quase nada sentia. Só o crepitar das chamas repercutia-se, em si, tal e qual o mecanismo do relógio que marca, compassadamente, o tempo que desconhece.

Talvez, apenas chegara o tempo de permanecer.

Por fim, aquietar tudo o que permitiu, um dia, sentir.

À sua frente, a brasa não o negava. O calor que emanava confortava-o, como uma carícia. Na brasa incandescente, o tempo ausentava-se, e as cores vibravam resplandecentes. Um mundo novo refletia-se nas dobras e recantos das chamas que dela se soltavam, livres.

No coração de um pedaço de carvão, o negrume transmutava-se na mais bela e colorida energia que aquecia o que não verbalizava. A negridão que o cobrira e o deixara perdido coloria-se assim que deixara de negar o seu sentir.

O tempo já não importava, porque a beleza transcendental da brasa elevava-o até onde não sonhara.

A inquietude não mais o atormentava porque dela se libertara o brilho da luz que o pó de carvão esquecera.

As chamas que o cercavam apenas o levariam, em segurança, ao lugar onde o sonho morava.

Um dia, transmutar-se-iam para que o que em si guardava, precioso, se libertasse e a sua alma voasse para o lugar que há muito tempo sonhara.

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ANA SANTOS, a gaivota
A vida fez com que ousasse pegar numa caneta e num caderno e nele viajar pelo mundo das palavras escritas sonhadas. Primeiro a medo, depois com menos receio, deu por si a relembrar-se do prazer que já em criança sentia pela escrita. Com uma licenciatura em Físico Química, não causará estranheza que a natureza seja o seu porto de abrigo. Adora estar em contacto com a natureza e é nela que encontra algumas respostas para os seus desassossegos, sem se sentir culpada, mas sempre abraçada.