Vivemos do avesso

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Fotografia @ Pixabay | Cartaz © Laura Almeida Azevedo

O maior paradoxo da vida é que aquilo que é mais importante nela é, ironicamente, secundário. Aquilo que nos fala ao coração, o que nos acende o brilho no olhar, vem sempre em segundo lugar. A família vem em segundo. As paixões em segundo. A saúde em segundo. Nós em segundo.

Primeiro, o dinheiro, e, em consequência, o trabalho. Primeiro, sobreviver. Depois, viver. Definitivamente, fomos programados do jeito errado. Construímos a nossa vida, o nosso mundo, assente nos pilares errados. A nossa mentalidade, formatada desde tenra idade, não é aquela que nos liberta, que nos completa, mas, sim, a que nos aprisiona, a que nos quebra.

A obrigação nunca deveria ser a prioridade. Apenas uma necessidade de uma vida em sociedade. Obrigação, sim, mas nunca em primeiro lugar. Jamais deveríamos tê-la deixado assumir o comando das nossas vidas.

Assistimos a pessoas que prejudicam a sua vida pessoal, a sua saúde, por causa das obrigações. Descuram quem realmente estaria ao lado delas nos momentos menos bons. Ignoram os sinais de um corpo cansado, que pede para que não o dobrem mais. E, um dia, será tarde. Os nossos lembrar-se-ão das vezes em que os pusemos em segundo, e o nosso corpo, e mesmo a nossa mente, já estará num ponto que não dará para reverter, porque, em vez de prevenir, escolhemos remediar.

Porque premiamos quem se maltrata e intimidamos quem se respeita? Sim, é isto mesmo. Quando vivemos assim, estamos a maltratar-nos. Não nos respeitamos, quando damos sempre prioridade àquilo que não tem esse direito, e esquecemo-nos de nós no processo.

Este efeito, este círculo vicioso, é complicado de reverter. Ou rumamos todos na mesma direcção, ou sozinhos não venceremos, porque seremos arrastados com a maré.

Porque temos que «ser» sempre depois de qualquer coisa? «Quando sobrar tempo»,«quando despachar isto», então damos atenção à família, namoramos, ou cozinhamos, lemos ou caminhamos. «Quando der», «logo que possa», cuido de mim. Quando sobrar tempo, teremos um filho, ou dois. Se não conseguimos nos cuidar, quanto mais a uma criança.

Nunca sobrará tempo, enquanto sentirmo-nos obrigados a encaixar toda uma vida em redor de uma só coisa.

Vivemos do avesso, caminhamos ao contrário, e nem por isso somos mais felizes, mais realizados e, muito menos, mais saudáveis.

Quando poremos o travão a fundo, quando inverteremos a marcha, sem que pese a nossa mal programada consciência?

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ANA PEREIRA, a inquieta
Nasceu numa noite estival, mas tem alma outonal. Convive com os números, mas encontra refúgio nas palavras. Aparenta serenidade, mas governa-a uma mente deveras inquieta. Se lhe perguntarem, é assim que se define a si própria. Aliás, estas foram palavras dela.