Seria a nossa vida uma loucura?

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Fotografia @ Pixabay | Cartaz © Laura Almeida Azevedo

Estávamos no início dos anos setenta. Continuávamos a sentir a angústia da partida dos jovens para uma guerra que se prolongava há demasiado tempo. Adiava-se a vida. Instalava-se a incerteza. Restava uma espera!

Se a nossa separação fora demasiado dolorosa, a espera tornara-se insuportável. Por isso, decidimos dar tréguas ao nosso sofrimento!

Celebrámos o nosso amor. O pesadelo não terminara. A dor da separação, essa, desapareceu. Sentíamos que, em nós, crescia a força capaz de adoçar o amargor… Agora, os dias sucediam-se mais doces e tranquilos. Não deixávamos que nada perturbasse a nossa harmonia, o nosso bem estar. Apenas nos queríamos sentir compensados pelos anos de separação tão dolorosamente suportados.

Agora, vivíamos!

Econtrávamos o tão desejado repouso no nosso amor! Vivíamos cada dia como se o amanhã não existisse! O nosso viver poderia até parecer uma loucura… talvez!

Hoje, não havia dinheiro para o jantar?

Teria sido melhor termos adiado aquela celebração… Afinal, foi tão dispendiosa! Não! Não podíamos… Já chegara de fazer adiamentos! Agora, tudo tinha que ser no momento certo… Nada do que queríamos hoje podia ser adiado para amanhã!

Então, e hoje? O jantar?

Havia todas aquelas garrafas em casa… Foram connosco às compras! Seriam elas a nossa “moeda de troca”. Assim, fizemos aquele jantar delicioso! Tanto nos aprimorámos que o saboreámos à luz das velas! Era este o nosso geito de fazer brilhar o sol na nossa intimidade quando as nuvens pareciam aproximar-se.

Quando o fim de semana estava ameaçado e tinha que ser nosso? Havia o telefone…

— Senhor Comandante, o meu marido não pode ir ao quartel. Adoeceu.

— Oh! Coitado! Não me diga que está outra vez com o paludismo crónico…

— É isso, senhor Comandante. Não está nada bem.

— Então, é preciso mandar lá o médico?

— Só se o senhor Comandante achar conveniente. Ele está a ser tratado por um médico amigo que vive aqui no prédio…

— Então, não há necessidade. Diga-me, ele pode escrever?

— Escrever, sim, pode.

— Então, eu vou mandar um soldado. Ele só precisa assinar o documento. Desejo as melhoras para ele. Fique em casa o tempo que for preciso.

— Obrigada, senhor Comandante!

E, sim! Ficava em casa o tempo que nós precisávamos…

Ainda hoje me pergunto: será que aquele Comandante acreditava mesmo no “paludismo crónico”? Ou apenas entendeu que devia colaborar com o nosso “faz de conta”?

Era assim, desta forma, que nos parecia estarmos a recuperar o que nos tinha sido pura e simplesmente roubado: o nosso tempo!

Sim, já eram quase quatro anos sem direito a férias!

Quatro anos em que não aceitar o que parecia ser absurdo se transformou em sucessivas “rebeldias”, sucessivas privações…

Sentíamos, agora, que estávamos a ser minimamente compensados. A esperança nunca deixara de iluminar os nossos sonhos!

Começávamos a ter a agradável sensação de sermos os donos das nossas vidas. Já não conseguíamos admitir que voltassem a separar-nos…

— Prepara-te. Amanhã vais comigo! Vamos estar fora uma semana.

— Sim, vamos! Que bom!

Eu não precisava saber para onde íamos… Só precisava de saber que também ía!

Saímos cedo. Agora, eu sabia que íamos estar no mato.

Ao chegar à barra do Quanza, sufocava de calor! No bar não havia água… Pela primeira vez, saboreei uma cerveja bem gelada. Achei-a deliciosa.

Agora, teríamos de atravessar o rio numa viatura militar, em cima de uma jangada. Não havia ponte. Seguiam-se umas dezenas de quilómetros pela picada.

Vivi a aventura! O calor e o pó sufocavam. O que os meus olhos observavam deixava-me encantada! No seu habitat natural os animais têm uma beleza que me surpreendeu. Foi para mim uma emoção, sim!

Após chegarmos, fui conhecer as instalações que nos eram destinadas: uma “moradia”! Dispunha de um quarto, um corredor, uma casa de banho improvisada e um pequeno alpendre com vista para o mar que se via lá muito ao fundo. Havia um enorme precipício! As paredes eram brancas. Estavam salpicadas de milhares de pontinhos pretos em constante movimento! E… alguém teve o cuidado do me alertar:

— Atenção, aparecem por lá os lacraus! Às vezes, escondem-se dentro do calçado. Se somos picados, a dor é insuportável!

Na verdade, nada me tirou o entusiasmo. Nem mesmo a notícia de que a minha mala só chegaria daí a uns dias.

O duche refrescou-me.

Fui para a “messe” onde seria servido o jantar. Todo aquele espaço estava envolvido em frondosa trepadeira. Era lindo!

Na verdade, aquele lugar era dotado de uma grande beleza natural! Havia quem o considerasse um verdadeiro paraíso… Acontecia, no entanto, que quem ali permanecesse por períodos prolongados deixava de sentir a beleza para sofrer com o isolamento a que se via forçado.

Eu era a exceção, a única mulher! Na verdade, viera “clandestina”. Senti-me bem acolhida! Não fora a esposa do alferes mais antigo… Brincavam comigo, assustando-me com perigos que não existiam. E eu ouvia os seus desabafos, o desespero de ali permanecerem meses seguidos…

Havia aquele alferes a quem doía a cabeça todos os dias! Era um bom amigo, um bom camarada! Estava a chegar ao seu limite. Todos os dias, o mesmo. O mesmo mar, a mesma paisagem, os mesmos homens… A mesma dor de cabeça. O mesmo desespero…

A minha estadia ali chegou ao fim. Apoximava-se a hora do último jantar. Nesse dia resolvi vestir-me de amarelo! Ao entrar na “messe”, mais uma vez me deparei com o habitual. O referido alferes passeava de um lado para outro com o queixume de sempre — a horrível dor de cabeça! Quando me viu, parou. Fixou-me, como quem vê um fantasma, e exclamou:

— Porra! Com tanto amarelo à minha frente, ainda me dói mais a cabeça!

Afinal, não só as situações de perigo provocavam o desespero naqueles jovens! Havia o isolamento que os feria de morte.

Então, o que era viver com quem tinha já suportado todas essas situações? Vivíamos o faz de conta? Só o presente importava? E o amanhã?

Vivíamos saboreando cada dia… E, em cada dia, tudo poderia acontecer… Nada era programado. Acontecia!

Seria isto uma loucura?

Se era loucura, foi ela que nos fortaleceu!

Se era loucura, fomos loucos, mas muito felizes!

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MARIA REIS, a avó-sorrisos
Ela não é uma mulher rica. É, sim, uma rica mulher! É dona de um coração generoso, que já ultrapassou sofrimentos, mas também sabe muito sobre o amor. É sonhadora: os sonhos estão sempre lá e o seu percurso de vida foi-se construindo com a realização de muitos deles. Desafios? Sim, aceita-os com determinação e entusiasmo. E, como alguém disse, «às vezes, é uma caixinha de surpresas».