A Terra gira

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Fotografia @ Pixabay | Cartaz © Laura Almeida Azevedo

A Terra gira e a folha desliza, sem receio de se afundar, no veio de água que a leva para longe do lugar onde nasceu. A Terra desbrava caminho no espaço imenso que abre alas à sua passagem. Não receia a escuridão porque, nas suas margens, as estrelas reluzentes são faróis que guiam na viagem que iniciou – já não se lembra há quanto tempo. A folha, nascida da árvore feita morada, deixou vingar o sonho menino até ao dia em que, corajosa, se desprendeu para largar o que a prendia e receber, com entusiasmo, tudo o que a corrente lhe prometia. A viagem, há muito sonhada, torná-la-á eterna viajante num mundo sem limites. A elegância dos seus movimentos, demarcados do papel que, um dia, os desenhou, juntá-las-á para confirmar o que já pressentem: não estão sozinhas.

A Terra gira e a folha rodopia nos seus braços, numa dança da qual não lhe conhece os passos. A folha tonta dá risadas que ecoam pelos recantos do casario. Esvoaçante, quase acredita que é um pássaro. Quer tanto aprender. A dançar. E sonha, sem receio de despertar. Fecha os olhos para mais perto do seu sonho ficar. Sente o seu pulsar no peito que o acolhe em segredo. Desconhece quem toca a música que ouve e as mantém entrelaçadas, numa onda de carinho da qual nenhuma delas deseja fugir. A folha ondula e o seu voo atira-a para diante. Confiante, ousa rodopiar em pontas. Chama, mas ninguém responde. Apenas a Terra a acolhe e a folha não duvida de que é ali o seu lugar. A Terra gira, já perdeu a conta às voltas que deu. A música não para de tocar. A folha abre os olhos. Sobre ela, um céu imenso cresce e sorri, encantado com a pequena folha, enquanto a Terra, protetora, mantém-na firme, perto de si.

A Terra gira, a folha flutua no lago e, num movimento sincronizado, nenhuma delas se adianta à outra. A Terra parece planar, num giro que a deixa, aparentemente, à deriva, num universo imenso, onde o silêncio engrandece as distâncias que percorre, sem cessar. A folha aquieta-se. Quer saborear o momento que lhe chega. Ficar. Só. A flutuar, na água que cobre a Terra, incansável no seu giro, tal e qual a cadeira fixa sobre a plataforma de um carrossel que não deixa de girar. A Terra gira e a folha crê que é o céu que gira sobre si. Gosta da ilusão que a põe a sonhar. O ribombar da trovoada aproxima-se, mas não a assusta. Cega pela luminosidade prateada, a insensata folha esquece-se de se proteger. A Terra estremece. A sua já longa e experiente jornada diz-lhe que é tempo de não baixar a guarda. A folha corre, através dos sulcos que se abrem na água que preenche o lago. A transparência da água afasta-a do fundo negro que se abate sobre si. A Terra murmura e a folha agita-se. Já não esconde o medo. Por entre violentas sacudidelas, a folha não se rende e, numa réstia de coragem, não deixa de ripostar.

A Terra gira e a folha resvala, surpreendida com a rajada de vento que a atinge. Quase cai. A Terra estende-se para aplacar o sobressalto causado na viva folha. Multicolor, a folha dá por si esquecida de tudo o que aprendeu, distraída que estava quando a calamidade a atingiu. É tão grande a revolta que lhe é impossível aceitar, sem questionar, o porquê. A dor é imensa, no movimento ríspido e cortante que a atingiu, desfigurando-a sem piedade. Tristemente amarfanhada, a folha deseja recuar. No entanto, a Terra gira sem parar. Resta-lhe avançar, enquanto a Terra desbrava caminho. A força que a domina desperta na folha a vontade de a perseguir. A Terra gira e a folha, num derradeiro movimento, agoniante, refreia a sua dor, e ziguezagueia. Deseja alcançá-la. Mais do que tudo. A Terra gira e a folha, cambaleante, segue-lhe o rasto.

A Terra gira, a folha esvoaça e as nuvens preenchem de negro a vidraça. Tolda-se a visão e a dor atroz que atinge a folha rouba-lhe o chão. Não vislumbra o caminho. A Terra pressente a turbulência escondida na folha e, sem ela dar por isso, avança no seu encalço, empurrando-a, de mansinho, para que faça o caminho, que a muito custo abre, sem disso se dar conta. Adivinha o medo que assalta a folha levezinha. A folha eleva-se, um pouco, e não esconde a surpresa pela força que, em si, descobre e a impele a chegar mais adiante. Não reconhece a sua origem. Nada sente para além do vento fresco que a toca. Talvez, seja ele que sopre a seu favor. Só um pouco mais de coragem. Uns fiozinhos de água caiem sobre ela e a frescura percorre-a. Não experimenta o frio que a água traz porque a terra quente não o permite. Apesar de dormente, a folha avança.

A Terra gira. A folha, exausta, tomba e a Terra corre para a apanhar. Silenciosas, movem-se rumo ao inevitável encontro, sem o suspeitarem. A Terra avança para alcançar a folha triste que se esqueceu de abrir as asas e voar. A folha, esvaída de si, deixa-se cair, sem se importar se a Terra chegará a tempo de a acolher. Firme, a Terra gira. Suspeita que já lhe resta pouco tempo até que a folha atinja o chão, desesperançada, na ausência do alento que a descolora. Quer tanto dizer-lhe que o mundo é imenso para que se renda, assim, resignada, à queda precipitada. Sem perder tempo, a Terra gira para a alcançar. Jamais a abandonará. Tem que lhe dizer que o mundo dá muitas voltas. Tudo é possível. Dir-lhe-á que parar nunca fez parte das suas intenções. A Terra gira. A folha vibra, numa réstia de fôlego que guardou. Decidida, sacode as poeiras e deixa-se elevar. A paisagem verdejante fá-la desejar voltar a casa.

A Terra gira e a folha ondula. A Terra, fiel ao eixo que a mantém firme no movimento que se perpetua, não duvida do caminho a percorrer. A folha, de olhos cravados nas nervuras que a cobrem, reconhece nelas a memória viva das origens da vida que a gerou. A Terra gira. A folha permite-se deslumbrar, enquanto cada célula que em si vibra, transporta-a para o colo da mãe que a criou. Sente saudades. A Terra gira desejando, com compaixão, acolher a folha desorientada e entregar-lhe a fé esquecida do que em si não nega: o amor. A folha deixa-se cair no regaço que a Terra preparou para si: morno, fofo, protetor. E congratula-se. Sente-se, de novo, em casa, na árvore de ramos vigorosos que a segurava e protegia de tudo o que lhe chegava. A Terra gira e a folha veste-se de verde. Esquecidas do tempo, a Terra e a folha movem-se, serenas, descerrando caminho, num espaço imenso onde raios de luz as trespassam sem as ferir.

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ANA SANTOS, a gaivota
A vida fez com que ousasse pegar numa caneta e num caderno e nele viajar pelo mundo das palavras escritas sonhadas. Primeiro a medo, depois com menos receio, deu por si a relembrar-se do prazer que já em criança sentia pela escrita. Com uma licenciatura em Físico Química, não causará estranheza que a natureza seja o seu porto de abrigo. Adora estar em contacto com a natureza e é nela que encontra algumas respostas para os seus desassossegos, sem se sentir culpada, mas sempre abraçada.