Quem não tem uma paixão secreta?

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Fotografia @ Pixabay | Cartaz © Laura Almeida Azevedo

Quase todos nós temos uma paixão secreta, um amor impossível, alguém que pertence ao nosso imaginário e que, de vez em quando, aparece nos nossos sonhos.

A minha paixão secreta remonta aos tempos de faculdade… Creio que o vi, pela primeira vez, numa das visitas de estudo. Com as hormonas aos saltos, reparei no homem charmoso que tinha diante dos meus olhos. Uma colega minha, fazendo-me regressar à realidade com uma cotovelada, sussurrou-me: «Estás maluca? Tem idade para ser teu pai.» «Qual quê? Daqui a uns anos isso não se nota nada.»

Os anos foram passando e eu continuei sempre a cruzar-me com este professor. Sempre em situações de trabalho, inclusive numa entrevista de emprego em que ele pertencia ao júri. De todas as vezes que estava ao pé dele escusado será dizer que o meu coração ficava acelerado, um certo nervosinho apoderava-se de mim e o meu sorriso colocava o seu ar mais estúpido.

De todas as vezes que estive no seu escritório, em reunião, imaginei-me secretamente a seduzi-lo. Pensava: «Será que ele reparou que lhe fiz olhinhos?» Ele era sempre tão simpático comigo. E eu acumulava uma réstia de esperança de que, um dia, ele me veria como uma mulher e não como uma estudante.

Era divorciado e foi uma decepção quando soube que tinha outra mulher. A partir daí mentalizei-me para me comportar como uma profissional e deixar de ter pensamentos pecaminosos com o meu professor.

Até hoje, que voltei a sonhar com ele. Sonhei que ele estava solteiro e que me convidou para um jantar romântico à luz das velas num hotel. Nesse jantar, enquanto comíamos e bebíamos um vinho, que me deixou a face rosada e mais desinibida, falámos e rimos imenso. Espontaneamente, subimos para o quarto. E aí pude comprovar que aquele homem charmoso, de sorriso maroto, era de facto irresistível. E que era mais, muito mais, do que aquilo que a minha imaginação conseguiu criar. O seu beijo eloquente e arrebatador, as suas mãos fortes e toda a sua postura de homem experiente levaram-me a um mundo que desconhecia.

Acordei «entusiasmada», a idealizar o dia em que o meu sonho será realizado. O dia em que, afinal, aquele professor, que pareceu ignorar os sinais, sempre soube do meu desejo. E que também me desejava. E que só estava a aguardar o momento certo. O momento em que seria solteiro e em que não teríamos uma relação profissional.

Porque há paixões secretas, amores impossíveis, pessoas que pertencem ao nosso imaginário e que gostaríamos de ter, pelo menos, uma vez na vida, para suprimir toda a nossa curiosidade… Mas, principalmente, todo o nosso desejo.

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CARINA MAURÍCIO, a fotógrafa
É budista e conservadora-restauradora. É de riso e choro fáceis. Tem tanto de sensível, quanto de corajosa e lutadora. Adora fotografar, jogar ténis e viajar. Viciada em comida, é fã de comida italiana. Gosta de dormir, de café, de chocolate. Dançar? Pode ser a noite toda. Mas também gosta de ficar na ronha, em casa, entre filmes e pipocas. Adora o som da chuva a cair no inverno e o som do mar em dias de verão. Campos floridos enchem-lhe o olhar, assim como as cores das folhas do outono. Apaixona-se facilmente e é uma apaixonada pela vida. Uma geminiana pura.