Tudo podia acontecer

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Fotografia @ Pixabay | Cartaz © Laura Almeida Azevedo

Na vastidão do espaço sideral, um pequeno planeta está prestes a completar uma volta em torno da estrela que ilumina a vida que em si transporta. É a sua estrela guia. Há muitos milhares de milhões de anos que a Terra escolheu gravitar em torno do Sol e, desde esse momento, ambos vivem em perfeito equilíbrio e harmonia. A deslumbrante Terra move-se, plena, vestida, elegantemente, de azul-marinho, confiante no rasto de luz que persegue porque acredita ser aquela a sua rota. Muitas outras luzes, longínquas, deambulam à sua volta, cintilando com brilhos deslumbrantes e cores maravilhosas. A Terra não lhes nega a beleza, porém, o seu coração escolheu o Sol para a valsa que tanto gosta de dançar. Deixa-a a sonhar. As voltas que dá e repete, sem perder o equilíbrio, deixam-na delirante. O Sol sabe disso e a sua luminosidade não o deixa mentir. A vida que pulula na Terra é grata pela atração irresistível entre a Terra e o Sol. Quem não gosta de uma bela história de amor! E aquela já dura há uma eternidade.

Assim que se aproxima o culminar de mais uma volta, a Terra, rigorosa nos seus intentos, não resiste a fazer o balanço da sua investida pelo espaço imenso. Em breve, uma nova etapa iniciar-se-á. A Terra tem a consciência de que não pode vacilar. Precisa de continuar a abrir caminho, com determinação, rumo ao infinito, ora vigiando a sombra, ora acautelando-se com o encadeamento da luz vibrante. Enquanto o tempo de reiniciar uma nova volta não chega, a Terra recorda voltas passadas. Algumas, simplesmente, únicas e irrepetíveis, tornaram o espaço demasiado pequeno para reter toda a comoção que a atingiu. E, quando rodou, sentiu-se a mais bela e doce das bailarinas. Outras tornaram-na descrente das intenções do mundo. Perdida e desfeita, a sua superfície cobriu-se de densas nuvens deixando-a desorientada, assustada com a escuridão que a atingiu. Só quando o vento tempestuoso as afastou ela foi capaz de redescobrir as maravilhas que a cobriam. O Sol radiante deixou-a esplendorosa e a Terra rodopiou, ligeira, sobre si, feliz com a demanda que a esperava. Desbravar caminho num Universo majestoso, onde apenas lhe cabia escolher o melhor para o dignificar.

Faltava mesmo muito pouco tempo para empossar-se das rédeas e lançar-se a novas investidas. Graças às suas numerosas viagens, muitos segredos o Universo lhe desvendara. As voltas que a Terra já dera ensinaram-lhe que nada era como, um dia, imaginara. O Universo não era tão cintilante como uma noite de céu limpo lhe fazia acreditar, nem tão negro como a lua nova ameaçava. A qualquer instante, astros de um mundo que não conhecia podiam cruzar-se com a sua órbita, abalando-a de um modo imprevisível. Graças ao Sol, fora capaz de se manter firme e diligente. E, mesmo inclinada pelas vicissitudes de algumas invasões inesperadas, foi capaz de se manter na rota que lhe fora delineada. Aprendeu a respeitar as estações e a valorizar o tempo. As batalhas que enfrentou tornaram-na tão mais destemida que descobriu, em si, a guerreira que desconhecia. O poder que usou deixou-a fortalecida. Os rochedos que se cruzavam consigo já não a intimidavam. A sua ferocidade reduzia-se a pó, antes mesmo de a atingir; e o brilho que emanavam, numa derradeira tentativa de a subjugar, era pura ilusão. Só os lunáticos insistiam em apelidá-los de estrelas cadentes. A verdadeira estrela era o seu Sol, com o qual nunca deixara de dançar. Junto dele sentia-se capaz de tudo.

Ao chegar ao fim de mais uma volta, não lhe restavam dúvidas que era apenas seu o rumo que tomava. Não havia outro planeta que o fizesse como só ela sabia fazê-lo. Muitos outros haviam que orbitavam no espaço em órbitas díspares da sua. Não eram nem mais bonitos, nem mais feios. Possuíam apenas uma beleza diferente. A luz que os atingia causava neles singulares fenómenos. A Terra gostava de os observar. E foi isso que fez. Observou-os, uma vez mais. Contemplou-os. Eram seus companheiros há tanto tempo. Respeitava-os. De repente, a Terra estremeceu perante o que lhe chegava, sem que fosse anunciado. O ruído não vinha das suas profundezas que ela tão bem conhecia. Estranhamente, o céu não nublara. O vento não soprara. E o Sol continuava vigilante.

Pac, pac, pac – ouviu-se.

Não queria acreditar. Era alvejada, sem quê, nem porquê, por pequenos projeteis que a atingiam de supetão. Movidos por forças ocultas, os pequenos grãos perfuravam a terra sem a ferir. Uma nuvem de arrojadas sementes caía dos céus, semeando a esperança de novos tesouros descobrir em si. A Terra vibrou com o impacto e não resistiu à invasão dos pequenos grãos que traziam em si a vida ainda por despontar. As sementes ávidas de alimento não se deixaram intimidar pela escuridão da terra que as recebeu. Surpreendentemente, havia nela tanto para ser entregue. Se, no início, se sentiu surpresa, depressa a Terra se recompôs. De imediato, compreendera. Completara uma volta em torno do Sol.

A Terra acabara de viver uma aventura de 365 dias. Sem dar sinais de cansaço, ansiava por dar início a mais uma nova expedição. E, como era tradição, chegara o momento de depositar em si as sementes que, apenas ela, escolheria para alimentar e deixar vingar sonhos guardados por realizar. Selecionaria várias, de diferentes cores, tamanhos e texturas, algumas aromáticas. Aquele era, para a Terra, sempre um momento bastante emocionante. Fazer novas escolhas e avançar rumo a um futuro desconhecido que se avizinhava cheio de possibilidades. Bastava manter-se em translação em torno do Sol, sem se esquecer de rodopiar. Em alegre diversão, as viagens são sempre mais fáceis de suportar. E assim o fez. Cheia de esperança desenhou, no espaço, uma curva destemida e avançou, sem perder de vista a sua estrela guia. Levava consigo as sementes que escolhera acolher, na viagem que agora se iniciava, para com amor e dedicação ajudá-las a crescer. Tudo podia acontecer.

Feliz Ano Novo!

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ANA SANTOS, a gaivota
A vida fez com que ousasse pegar numa caneta e num caderno e nele viajar pelo mundo das palavras escritas sonhadas. Primeiro a medo, depois com menos receio, deu por si a relembrar-se do prazer que já em criança sentia pela escrita. Com uma licenciatura em Físico Química, não causará estranheza que a natureza seja o seu porto de abrigo. Adora estar em contacto com a natureza e é nela que encontra algumas respostas para os seus desassossegos, sem se sentir culpada, mas sempre abraçada.