Vamos procurar ajuda. Não estás mais sozinha!

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Fotografia @ Pixabay | Cartaz © Laura Almeida Azevedo

A Sara e o Leonel eram amigos desde a infância. Naquele dia na escola, o Leonel surpreendeu a Sara sem que ela tivesse notado a sua aproximação. Prendeu-a entre os braços pela cintura. Ela começou a espernear e a gritar: «Larga-me, larga-me!». «Calma, sou eu, o Leonel», diz o Leonel a rir-se com o facto de ela estar assustada.

Ela começou a chorar e ele, então, largou-a e pediu-lhe desculpas. «Estava só a brincar contigo, Sara.» Ela fugiu a correr para trás do edifício onde tinham aulas.

Sentou-se no chão, com a cabeça entre as pernas, e chorou muito. O pensamento dela ainda estava preso ao passado. O Leonel, que a seguiu, sentou-se ao lado dela sem dizer nada.

Quando ela finalmente se acalmou, começou a falar: «Sabes, aquela estrada de terra, por trás da igreja, onde eu costumava ir caminhar?» Ele acena com a cabeça que sim. «Está lá aquele terreno com uma casa abandonada… Um senhor começou a ter lá as ovelhas. A primeira vez que o vi disse-me: “Menina, olhe que esse caminho não tem saída.” Eu respondi: “Eu sei. Vou caminhar até ao fim e volto para trás.” A partir daí, durante semanas, cumprimentava-me sempre e eu a ele. Tinha um ar simpático, de bigode e sempre com o seu cigarro na boca. A sua bicicleta ficava caída junto ao muro de pedra que circundava o terreno. Um dia, quando estava a terminar o caminho, e a voltar para trás, ele chegou ao pé de mim de bicicleta. Tinha um ar diferente, alucinado… Perguntei assustada: “Então, veio dar uma volta?” Ele saiu da bicicleta, deixando-a cair no chão e atirou o cigarro para o chão…»

Desatou a chorar compulsivamente, de novo, sem conseguir falar. O Leonel abraçou-a.

Continuou: «E agarrou-me à força. Tinha um cheiro nauseabundo. Tentei soltar-me e comecei a gritar. Disse-me que não valia a pena gritar…que só eu é que ia para aqueles lados. Atirou-me para o chão. Lutei até não ter forças. Gritei até não ter voz. Chorei até não ter lágrimas… Mas ele rasgou-me a roupa, Leonel, e penetrou-me abruptamente! E, naquele momento, não sei se a dor física era superior à dor psicológica. Por não conseguir defender-me daquele monstro que me tirou tudo naquele momento. A virgindade, o amor-próprio, a dignidade! Ficou o medo, os pesadelos, a vergonha, o arrependimento por ir para ali sozinha, a culpa pela confiança que lhe dei… Têm sido dias a sofrer em silêncio, mas não aguento mais guardar só para mim».

Leonel levantou-se de rompante, esticou-lhe a mão para a ajudar a levantar-se e disse-lhe: «Vamos! Vamos procurar ajuda. Precisas de ajuda especializada. Não estás mais sozinha!»

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CARINA MAURÍCIO, a fotógrafa
É budista e conservadora-restauradora. É de riso e choro fáceis. Tem tanto de sensível, quanto de corajosa e lutadora. Adora fotografar, jogar ténis e viajar. Viciada em comida, é fã de comida italiana. Gosta de dormir, de café, de chocolate. Dançar? Pode ser a noite toda. Mas também gosta de ficar na ronha, em casa, entre filmes e pipocas. Adora o som da chuva a cair no inverno e o som do mar em dias de verão. Campos floridos enchem-lhe o olhar, assim como as cores das folhas do outono. Apaixona-se facilmente e é uma apaixonada pela vida. Uma geminiana pura.