Uma luz que me guie

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Fotografia @ Pixabay | Cartaz © Laura Almeida Azevedo

Sentada no chão da sala, rodeada de pequenas caixas onde até há pouco estavam os enfeites, admirava o resultado do seu esforço em tornar aquele espaço o mais natalício possível. Sempre adorara esta altura do ano, as luzes, as cores, os cheiros, as músicas que se repetiam incansavelmente, tudo isto combinado com o inverno e o aconchego das roupas quentes faziam de dezembro o seu mês favorito.

Dezembro trazia-lhe sempre alguma paz interior, mas este ano não era assim. O frio teimava em não se ajeitar. O espírito natalício não vingara. Adiara o mais possível as decorações. Sabia que não havia nada que lhe pudesse trazer conforto. Aproximava-se o final de um ano que deixara um vazio imenso. Um ano de perda de muitas coisas e o princípio do fim de outras tantas. E faltava a peça fundamental.

Faltava o homem que virara a sua vida do avesso, que apresentou a si uma mulher que ela desconhecia, que a fez desejar ser melhor pessoa do que era. O amor, que lhe tinha, coabitava com as saudades do seu sorriso, da sua voz, do seu jeito irrequieto. Saudades daquelas com garras afiadas. Queria poder abrigar-se no seu corpo, sentir o seu calor, a sua respiração. Queria tanto ser parte da sua vida. Viver o amor que tinha para lhe dar. Aquele amor que escavava em si um buraco cada vez mais fundo por não ter para onde ir.

Fechou os olhos. Inspirou. Invocou a imagem dele na sua mente. Depositou-lhe um beijo demorado na testa. Desejou-lhe um Natal feliz. Nem isso lhe era permitido fazê-lo de outra forma. Abriu os olhos. Expirou.

Sentada no chão, hipnotizada pelo piscar das luzes, olhava-as na esperança que lhe indicassem um caminho que a levasse ao fim daquela dor.

Pouco mais lhe restava senão esperar que uma luz a guiasse.

Olhou para a estrela prateada que segurava na mão. Começou a rir, riu até cair para trás. Ria e chorava ao mesmo tempo. «Querem ver que estou a à espera que a estrela dos reis magos faça um desvio por aqui e me salve», pensou.

Estava a perder o juízo. Levantou-se. Abanou a cabeça e sorriu. Colocou a estrela no topo da árvore. Devia deixar a árvore assim. Despida com apenas um estrela no topo. Vazia, à espera de novas memórias futuras. Como ela.

Quem sabe se não seria aquela a estrela que a guiaria?

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