A noite de Natal

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Fotografia @ Pixabay | Cartaz © Laura Almeida Azevedo

A noite enchia o peito de ar e não estranhava o frio que chegava até ao íntimo do seu ser. A estação assim o determinava. Um poder maior transmutava o ar enregelado e logo o peito se esvaía, lançando uma nuvem de ar quente que se elevava em movimentos ondulantes, deixando um rasto de mistério na noite que avançava, silenciosa. Os olhares curiosos seguiam o rasto, com particular cuidado, não fossem, sem querer, precipitar o seu avanço, destruindo a fluidez com que o fazia. Assim, pouco a pouco, os novelos de ar quente subiam, e de cada vez com maior ousadia, e antes que se desvanecessem já os olhos se haviam perdido na grandiosa cúpula, arrebatadora, deixando o peito contraído, esquecido do frio que permanecia. Claramente, a noite, límpida, deixava-se envaidecer e, porque era uma noite abençoada, iluminava-se, cintilante, do alto dos céus, deixando a descoberto o caminho para que dúvidas não houvessem, entre os que buscam o amor divino, quanto à direção a tomar. Não pretendia vangloriar-se, somente deixar a humanidade de rosto erguido, em contemplação, despojada, sem medo, rendida às ofertas do universo majestoso. E, nessa contemplação, abrir, com verdade, o coração ao amor.

A noite crescia e desfilava, livre, oferecendo aos que com ela se cruzavam sinais de bem-aventurança e de conforto, que o frio não era capaz de enfraquecer. A oportunidade de redenção elevava o coração dos que ainda acreditavam no poder do amor. Um dia, a notícia percorrera o planeta de lés a lés e não houve um único lugar onde não tivesse chegado a boa-nova: o menino Jesus nascera. As populações rejubilaram. O nascimento daquele bebé, angelicamente anunciado, fizera renascer, no coração de cada um, a esperança. A crença num rumo diferente para a humanidade tornou-se presente. E, em manifesta e sincera alegria, deslocou povos que logo o quiseram conhecer. Nas honrarias que lhe prestaram, reconheceram, nele, o amor maior do Pai pelo filho nascido do ventre da Mãe. Os sentimentos de humildade e de gratidão floresceram nos corações dos que o adoraram. Sementes foram lançadas, enquanto a história milenar, de um bebé nascido numa gruta, atravessou gerações, e jamais ficou esquecida. A noite do solstício de dezembro, a noite mais longa do ano, foi incumbida de manter viva a lembrança. E todos os anos é com esmero que se prepara para honrar a lembrança do Deus menino e encher de ternura os corações sedentos de amor. Os seus modos serenos e amistosos cativam as almas, crentes, ou não. É impossível ficar-lhe indiferente. Nessa noite, o céu cobre-se com um manto de cetim azul-escuro onde se refletem as luzes que em cada uma das casas são acesas para afastar a densa escuridão e viver, em paz, as emoções que o nascimento de um bebé sempre desperta. Pé ante pé, a noite avança de mansinho. É tempo de silenciar. E, no silêncio, encontrar o rumo. Sem pressas. Apenas com amor.

A meia-noite já não tarda. O sino toca. E, espalhando alegria, chama. As sonoras e persistentes badaladas convidam a população a reunir-se para o encontro com o Deus menino. Há mais de dois mil anos que os povos de todo o mundo haviam respondido ao chamamento de uma luz brilhante, vibrante, para adorar um menino que lhes falava, amorosamente, no silêncio dos seus corações. Desde essa noite, se perpetuou o chamamento divino. Na noite de Natal são muitos os que se reúnem para celebrar a chegada do Deus menino à Terra. Contagiados pela alegria do menino, celebrar a vida. Conquistados pela sua inocência, celebrar a simplicidade. Rendidos à candura do menino, ofertar com generosidade e compaixão. Com respeito, reconhecer-lhe a grandeza do seu coração. Na sua fragilidade, descobrir a força de ser. Em harmonia, experimentar a dádiva do amor. Com fervor, renovar a fé, no amor incondicional do Pai pelo seu filho. Saudar a sua presença e convidá-lo a entrar no lar, com um sorriso no rosto, unindo todos, no mesmo sentimento. O sino voltou a tocar, ainda mais uma vez. Em muitas casas, não se hesita em trocar o conforto do lar aquecido pelo frio tiritante da rua para chegar até ao presépio, onde, em comunidade, se renova a esperança. No íntimo do coração de cada homem, e de cada mulher, faz-se o natal.

Renascer depois de renovada a fé. O encontro com a luz, depois da escuridão. A escuridão deixa, então, de ser um lugar tenebroso, quando se pressente que nela há nascentes de luz ansiosas por transbordar, a qualquer momento. O coração desperto e livre intui que assim é. O menino Jesus ensinou-o a quem o ouviu com o coração. Uma longa noite traz sempre um luminoso amanhecer. Os que festejam o Natal não duvidam que a luz chegará. A viagem é longa e árdua, mas os caminhos multiplicam-se e tudo é possível. Basta acreditar. Porém, enquanto o Sol radiante não chega, e para que não subsistam dúvidas, os devotos colocam, displicentemente, candeias de azeite às janelas de suas casas. Elas são acesas, em silêncio, para que nada perturbe a chama que, progressivamente, cresce e se revigora. Apesar de pequeninas e tremeluzentes, o calor que as luzinhas emanam crepitam nos corações dos que as perseguem, oferecendo um rasgo de confiança que não se deseja esquecer. O silêncio é o comburente que a mantém acesa e radiante. Imersos nos seus mais secretos pensamentos, os fiéis regressam a casa com o coração a bater compassado, esquecidos do frio que toca os seus rostos descobertos. Transportam, em si, uma luz efusiva que se deixou acender pelo amor a um menino nascido do Pai.

Feliz Natal!

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ANA SANTOS, a gaivota
A vida fez com que ousasse pegar numa caneta e num caderno e nele viajar pelo mundo das palavras escritas sonhadas. Primeiro a medo, depois com menos receio, deu por si a relembrar-se do prazer que já em criança sentia pela escrita. Com uma licenciatura em Físico Química, não causará estranheza que a natureza seja o seu porto de abrigo. Adora estar em contacto com a natureza e é nela que encontra algumas respostas para os seus desassossegos, sem se sentir culpada, mas sempre abraçada.