Um ajudante inesperado

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Fotografia @ Pixabay | Cartaz © Laura Almeida Azevedo

Era uma vez um pequeno João. Seis anos de esperteza. Resposta sempre pronta na ponta da língua. Despachado. Dizia que era crescido enquanto os outros, da sua idade, eram ainda pequeninos.

João era extremamente mimado. Tinha tudo o que uma criança precisava e mais ainda. Tinha brinquedos que mal haviam sido usados. Se não gostava, não o escondia de quem os oferecia. Desdenhava. Jogava-os para um canto. Achava que o mundo era seu. Fazia birras quando não tinha o que queria. Amuava. Chegava a ser intratável.

Ele não valorizava nada porque tinha tudo. Na escola, os professores tinha dificuldade em lidar com ele, porque João esperava ser tão mimado ali quanto era em casa.

O Pai Natal já não sabia o que lhe fazer. Mesmo que não lhe desse prendas, ele ia apenas entender isso como uma afronta, e não como uma lição. Só ia ficar ainda mais insuportável.

Numa noite de sexta-feira, João adormeceu rabugento, porque os pais tinham ameaçado que este ano não merecia prendas. Para além disso, tinha que doar alguns dos brinquedos que tinha, porque eram demasiados. E que culpa ele tinha disso? As coisas eram dele. Respondera aos pais.

João acordou sobressaltado. Não reconheceu o lugar onde estava. Estaria a sonhar? Só podia.

Não estava em casa. Via tendas até perder de vista. Via gente a deambular por entre elas. Os olhares vazios e perdidos. Olhavam em redor em busca de uma esperança perdida. Estava frio, muito frio. O chão estava enlameado. Havia crianças que brincavam com a lama porque não tinham mais onde brincar.

João estava assustado. Sentia frio e medo. Onde estava? Andou por entre as tendas. Um cheiro forte invadiu-lhe as narinas. Ouviam-se choros de bebés. Via mães que choravam com os filhos ao colo. Ele próprio já tinha as lágrimas a correr-lhe pelos olhos. Queria ir para casa.

Sentiu fome. Viu alguma comida, mas desaparecera num ápice por entre mãos esfomeadas.

Tentou falar com alguém, mas as pessoas não o viam. Encontrou uma criança da sua idade. Tentou falar-lhe, mas parecia que era invisível. Viu que o miúdo brincava com um carro velho de corridas. Já lhe faltavam as rodas e as portas. A cor já estava a desaparecer. João tinha um em casa, novo e mais moderno. Era telecomandado, mas este aqui era apenas empurrado.

Que lugar era este? Onde estaria ele?

«Num campo de refugiados», respondera um velho de barbas brancas que estava ao seu lado. «Sabes, alguns destes meninos também tinham tudo como tu, mas, um dia, a guerra entrou-lhes casa adentro, tirou-lhes tudo e tiveram que fugir pela vida. E, agora, vivem da caridade num país que não é o seu e que não os quer aqui.»

João estava sem palavras. Aquele era o Pai Natal?

De repente acordou, na sua cama. Ufa, tinha sido apenas um sonho. Levantou-se. Estava cheio de fome e já cheirava o pequeno-almoço. Quando entrou na casa de banho, viu que estava sujo e que tinha os pés cobertos de lama.

Não fora um sonho! Olhou boquiaberto para o espelho.

Na segunda-feira, quando chegou à escola, levava uma caixa cheia de brinquedos para doar. A professora nem queria acreditar. Há dois dias, recusara-se a participar da angariação. Os pais pareciam tão incrédulos quanto ela.

«O que fazem com os brinquedos?», perguntou João. «Entregamos a organizações que se encarregam de os distribuir pelas crianças que não os têm», respondeu-lhe a professora.

«Não devia ser o Pai Natal a lhes dar?», contrapôs João. «Quem disse que não é? Ele trabalha de muitas formas e conta com muitos ajudantes.» A professora piscou-lhe o olho.

Algumas semanas depois, num descampado feito casa de muitos, uma criança recebia um carro de corridas novinho em folha. Que andava sozinho! Os olhos da criança brilharam. Meses antes, deixara na casa de onde fugira um exatamente igual. Uma prenda que o pai lhe dera no Natal anterior. Como é que eles sabiam?

Encostado, numa esquina, a observar a cena, estava um velho de barbas brancas, que sorria.

Mais uma missão cumprida.

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