Duas vidas, um comboio, um livro, o amor

Fotografia @ Pixabay | Cartaz © Laura Almeida Azevedo

Todos os dias de Maria se iniciavam da mesma forma, seguindo a mesma rotina: Maria levantava-se de madrugada, tomava o seu duche, tomava o pequeno-almoço, acariciava o seu gato e saía de casa num passo apressado. Todos os dias, Maria chegava à estação de comboios e aguardava por aquele comboio que a levaria a caminho do seu emprego. Quando chegava o seu comboio, escolhia uma carruagem o mais livre possível, sentava-se e tentava ligar-se ao mundo. Desengane-se o leitor que pensa que esta tentativa de se ligar ao mundo era feita através do diálogo com os outros passageiros. Também não era feita pela leitura de algum jornal matutino. Quanto muito, Maria lia os títulos maiores no jornal online, utilizando para tal o tablet ou o smartphone (abençoados equipamentos que permitiam que, quando a um faltasse a bateria, existisse o outro).

Os tempos “perdidos” nos transportes públicos, que eram bem longos, eram ocupados no manuseamento desses equipamentos. De fones nos ouvidos, de olhar vazio, ouvia, através do seu smartphone, um programa de rádio, um podcast, ou apenas música. Por vezes, ouvia isto enquanto percorria as redes sociais. Facebook, Instagram… Elas eram a sua forma de socializar, eram a sua forma de perceber o mundo diariamente: atenta ao que se passava a muitos quilómetros dali, pelo mundo inteiro, mas completamente ausente de tudo o que se passava ao lado dela. De facto, ela não se apercebia da idosa cansada que, todos os dias, entrava naquele comboio, à mesma hora, sem nada de concreto para fazer durante e após a viagem. Apenas realizava aquela viagem, diariamente, para encetar conversa com os passageiros, numa luta pessoal contra uma solidão crescente. Maria não se apercebia da mãe solteira que, todos os dias, levava a filha pela mão a caminho da escola, antes de seguir para o trabalho. Não iria perceber que, apesar do cansaço, aquela mãe conversava e ouvia atentamente as histórias da filha sobre o seu sonho com monstros. Não se apercebia dos quatro ou cinco adolescentes que socializavam através dos seus telefones, não trocando uma palavra entre eles. Não se apercebia do jovem estudante de Erasmus que observava atentamente, todos os dias, a cidade a desdobrar-se perante os seus olhos com a curiosidade de alguém que não pertence a este local e, por isso, se maravilha com qualquer alteração na luz e nos cheiros. E muito menos se apercebia de António, que, todos os dias, fazia questão de ocupar a mesma carruagem que ela. Todos os dias, António, acompanhado de um qualquer livro que se encontrava a ler naquele momento, tentava ler (ou tentava dar a ilusão que lia) enquanto, discretamente, procurava observar aquele rosto que o intrigava, tentava captar aquele olhar que se perdia apenas na contemplação de um vazio ou na observação do ecrã do seu smartphone.

Foi tentando chamar a atenção dela com o tipo de livros que trazia em mãos. Sabia, melhor do que ninguém, que os livros não se avaliam pela capa. Contudo, tentava captar-lhe a atenção com vários livros, através dos seus títulos. Tentou mostrar-se interessado por livros que falavam de animais (afinal, os animais e as suas aventuras são sempre um tema de interesse para as mulheres, pensava ele). Como tal, optou por um título vencedor: «Marley e Eu». Todavia, não vislumbrou qualquer tipo de interesse no olhar dela. Procurou chocá-la com um título bastante sugestivo: «Homens que odeiam mulheres». Por mais de uma semana o carregou, mas ficou-lhe a certeza de que ela nunca terá olhado para o livro ou para a sua capa. Procurou espicaçá-la com livros ditos de autoajuda com títulos tão sugestivos como «Porque os homens fazem sexo e as mulheres fazem amor?» Procurou mostrar-se um homem romântico, lendo autores conhecidos por serem mais apreciados pelo público feminino. Ofereceu grande destaque àquele que as suas amigas diziam ser o mestre: Nicholas Sparks. Com nenhum deles conseguiu captar a atenção de Maria.

Os dias sucediam-se lentamente, as estações iam passando, a paisagem ia-se alterando, ao ritmo das leituras de António. A primavera tinha dado lugar ao verão, ao interregno das férias, ao regresso das rotinas com os mesmos rostos a viajar no comboio. Chegou o outono e, pouco depois dessa chegada, começou a anunciar-se o Natal. É verdade que as temperaturas ainda não indicavam grandes e rigorosos invernos, mas os dias já eram mais pequenos e as manhãs mais frias. As ruas e as lojas começavam a ver-se enfeitadas de espírito natalício. António continuava a viajar no mesmo comboio, assim como Maria. Contudo, quanto mais António tinha noção da presença de Maria, mais alheada parecia Maria de tudo o que a rodeava. A sua atenção, como sempre e desde sempre, estava presa àquelas vidas que acompanhava pelas redes sociais.

E chegou o dia em que António decidiu dar vida a um derradeiro esforço. A sua última tentativa contou com a ajuda de um livro que já considerava ser um clássico, um dos seus livros de cabeceira: «Cem Anos de Solidão». Desta feita optou por, depois de ler o livro — enquanto observava, como sempre, a sua colega de viagem —, casualmente esquecer os «Cem Anos de Solidão» em cima do banco… Abandonou ali uma das obras que ele mais apreciava, jogando a sua última cartada. Ela pegou nele, correu atrás de António, mas ele já não a ouviu. Era o tudo ou nada para António. Se esta última tentativa não trouxesse os frutos aguardados, esqueceria esta ideia fixa de conhecer Maria.

Maria voltou, então, para o caminho que levava. Com o livro em mãos, que mais poderia fazer? À hora de almoço, e pela primeira vez em muitos anos, decidiu folhear o livro em vez de passar o dedo pelo ecrã do smartphone. Tratava-se do famoso «Cem anos…» do não menos famoso Gabriel Garcia Márquez. Até ela, que pouco lia, conhecia a obra e o autor. Pelo meio, encontrou um pequeno bilhete que dizia de forma sucinta:

«Estamos na época de Natal. Decidi oferecer um livro…
Encontraste-o. Considera-o teu.
Espero que ele consiga ocupar o teu tempo, fazer-te companhia e combater a solidão que, por vezes, nos assola.
António»

No dia seguinte, tal como todos os outros dias, Maria levantou-se de madrugada, tomou o seu duche, tomou o pequeno-almoço, acariciou o seu gato e saiu de casa num passo apressado. Na mão levava o romance: «Cem anos de solidão». Tal como todos os outros dias, caminhou apressada em direção à estação de comboios. E, tal como nos outros dias, aguardou que o comboio chegasse, para entrar em seguida na carruagem. Mas, hoje, e não como nos outros dias, ela não se sentou e baixou a cabeça em direção ao telefone. Sentou-se, com o seu livro em mãos, e ofereceu-se o tempo de observar tudo quanto a rodeava. Viu a mulher idosa que todos os dias conversava com uma pessoa diferente. Viu a mãe da criança que já tinha um olhar cansado logo pela manhã, mas que ouvia com interesse a sua filha. Viu os jovens que socializavam através dos seus telefones, não trocando uma palavra entre eles. Viu o jovem estudante de Erasmus que continuava maravilhado com a cidade e com as suas gentes. E, finalmente, viu-o. Pela primeira vez, os olhares cruzaram-se, as bocas entreabriram-se num sorriso. O olhar de António desceu para as mãos de Maria, que seguravam, como se de um tesouro se tratasse, os «Cem anos de Solidão» e um novo sorriso nasceu no seu rosto. «Olá. Sou o António», foram essas as palavras dele…

Anos mais tarde, numa biblioteca caseira, este seria o livro que ainda ocuparia o lugar central na casa de António e Maria. Aquele era o símbolo da sua união.

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ESTEFÂNIA BARROSO, Steff — a alma sonhadora
Professora. Gosta de verão e de calor. Gosta de animais — sobretudo, de gatos. Gosta de uma boa história. Por isso, gosta de cinema e de literatura. Apreciadora de café porque precisa e de vinho porque merece. Sonhadora, sempre. Acredita, como diz o poeta, que «O sonho comanda a vida». Tem um blog: «Steff’s World – A soma dos dias».