Um Natal a correr

657
Imagem © Pixabay | Cartaz © Laura Almeida Azevedo

As luzes acendem-se. Dão vida às ruas e às casas. Dão vida a nós. Iluminam qualquer coisa cá dentro. Acordam um ser melhor, adormecido durante o ano e que só desperta por esta altura.

Deve ser isso. As luzes. E as cores. As montras engalanadas com motivos alusivos à época. Verde, vermelho, prateado e dourado. E branco, claro. A única neve que se vê por cá.

Pergunto-me: se esse lado mais humano, mais caloroso, está em nós, porque não lhe damos uso mais vezes? Porque precisamos de uma data assinalada para isso? Seremos meros atores numa peça gigantesca durante um mês, cujo último ato se encerra com a passagem de ano?

A azáfama é visível em todo o lado. Nas lojas, nos supermercados, nas pastelarias, pelas ruas e avenidas. É um corre-corre para ter tudo pronto na data certa.

De repente, queremos estar todos uns com os outros. E no resto do ano? Os avós, os primos, os tios e os amigos, não estão também por perto nos outros dias? Marcam-se jantares sobrepostos, mesmo com gente que mal se vê ou se fala.

É a época em que se come como nunca e gasta-se como nunca.

Eu até sou fã do Natal. Das decorações e das luzes. Dos cheiros e dos doces. Das canções e dos contos com final feliz. Só não aprecio, nem compreendo, a correria louca. O gastar o que, muitas vezes, não se pode, ou não se devia, só para oferecer, muitas vezes, aquilo que não faz falta a ninguém. São apenas coisas. Há quem se prive de ter algo de que precisa, só porque teve que comprar prendas.

Vejo cada exagero que me pergunto, afinal, onde estão os baixos salários. Não digo que não se presenteie os nossos, os que conhecemos bem, quando sabemos do que podem realmente precisar ou porque sabemos que essa pessoa vai gostar e estimamos ver a sua reação. Mas há coisas e coisinhas. Se não fizeram falta durante o ano, também não farão agora.

Façam uma troca de prendas na família e ponto. Quem não pode dar não se sentirá constrangido, quem pode que dê de outra forma ou noutra altura, se fazem assim tanta questão. Ensinem as crianças a valorizar o que têm. O espírito da dádiva vem do coração e não sob a forma de coisas. Não é só dar porque todos dão. É dar de coração.

Querem comprar, comprem durante o ano. Querem reunir-se, reúnam-se durante o ano. Não ponham tanto em tão poucos dias, pois nem apreciam esses momentos como deve ser. E, infelizmente, os que amamos não estarão sempre por perto e, no Natal, pode já ser tarde demais.

A correria é tanta que nem se usufrui do momento em si, da sua beleza e da harmonia destes dias, que infelizmente são curtos.

Lembrem-se que as melhores prendas que podem ter não vêm em embrulhos. Chegam sob a forma de experiências e memórias. E o Natal é apenas mais um momento para as construir.

Não corram. Usufruam destes dias. Estejam com os vossos. Hoje e em qualquer outro dia.

Comments

comments

PARTILHAR
Artigo anteriorSei que estou numa ilha pequena…
Próximo artigoA monotonia de nada fazer!
ANA PEREIRA, a inquieta
Nasceu numa noite estival, mas tem alma outonal. Convive com os números, mas encontra refúgio nas palavras. Aparenta serenidade, mas governa-a uma mente deveras inquieta. Se lhe perguntarem, é assim que se define a si própria. Aliás, estas foram palavras dela.