Sei que estou numa ilha pequena…

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Fotografia © Carina Maurício | Cartaz © Laura Almeida Azevedo

Sei que estou numa ilha muito pequena:

Quando não existem voos diretos de lisboa.

Quando aterro na ilha e me perguntam: «É professora?»

Quando as chaves dos carros ficam na ignição e as portas das casas ficam destrancadas.

Quando só existe cinema às sextas e toda a gente vai.

Quando a rádio local é uma miscelânea de estilos musicais. Desde aquela música brutal da minha banda favorita, ao cantor regional que canta com pronúncia: «Sou açoriano de alma e coração. Corre-me nas veias a lava do vulcão.»

Quando as notícias, nesta mesma rádio, são meras estatísticas sobre o quotidiano da ilha. Quanto peixe foi pescado, quanto leite as vacas deram, quanta água foi consumida, quantos passageiros chegaram de barco ou avião, quanto lixo foi produzido…

Quando só há legumes ou fruta variada nas prateleiras do supermercado, ou até mesmo os meus iogurtes preferidos, no dia em que chega o barco. E, se estiver mau tempo, e o barco não vem, passam-se dias em que estas mesmas prateleiras estão vazias.

Quando quero comprar pão e me lembro que devia ter ido de manhã, porque à tarde acabou. Agora encomendo, como toda a gente faz. E à segunda vez a pessoa já sabia o meu nome e o meu pedido. Tal como a senhora do café…

Quando denominam de mercado um espaço apenas com um talho e uma peixaria. E só há mini mercados para fazer compras.

Quando vou ao mini mercado e uma pessoa, que não conheço, me pergunta: «Então, menina, está a gostar da ilha?»

Quando não há hospital. Apenas centro de saúde.

Quando consigo chegar de carro a qualquer lugar da ilha em dez/quinze minutos.

Quando tenho sempre o mar como pano de fundo e sinto o seu cheiro onde quer que esteja.

Quando tenho vacas como animais de estimação no meu quintal.

Quando vou aos correios, a uma aula de ginástica, a uma consulta ou a uma loja e toda a gente me pergunta ou se dirige a mim como sra professora. Porque sou nova na ilha. E quem é novo vem dar aulas…

Quando quero jogar no euromilhões, ou comprar uma revista ou jornal, e é impossível. Simplesmente, não há.

Bem vindo/a à Graciosa, a segunda ilha mais pequena dos Açores. Ao menos não é o Corvo, penso. E sorrio.

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CARINA MAURÍCIO, a fotógrafa
É budista e conservadora-restauradora. É de riso e choro fáceis. Tem tanto de sensível, quanto de corajosa e lutadora. Adora fotografar, jogar ténis e viajar. Viciada em comida, é fã de comida italiana. Gosta de dormir, de café, de chocolate. Dançar? Pode ser a noite toda. Mas também gosta de ficar na ronha, em casa, entre filmes e pipocas. Adora o som da chuva a cair no inverno e o som do mar em dias de verão. Campos floridos enchem-lhe o olhar, assim como as cores das folhas do outono. Apaixona-se facilmente e é uma apaixonada pela vida. Uma geminiana pura.