A vida é dona do tempo

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Fotografia @ Pixabay | Cartaz © Laura Almeida Azevedo

Tenho tudo o que preciso e, mesmo assim, procuro o que me faz falta. É sempre assim. Não valorizamos o que temos e andamos por aí em busca de quem não nos valoriza.

A vida deu-me passados que me moldaram. Passados que esculpiram tudo o que hoje eu sou, esta estátua feita pela vida que, tantas vezes, nem eu mesma consigo entender.

Em boa verdade, eu olho para trás e só vejo o lado mau da vida. Passo por cima dos momentos em que sorri e em que dividi felicidades com outros que me rodeavam. Outros que naquela hora me acompanhavam.

Viver é sinónimo de partilhar momentos com outros e eu não fui diferente dos demais. Viver é estender os braços para abraçar quem está ali e nos dá um pouco da sua felicidade de forma gratuita. O amor não se vende. O amor sente-se e, quando entendemos essa realidade, passamos a ser gratos à vida e a tudo o que ela nos vai dando.

No entanto, continuamos a andar por aí, procurando algo que nem sabemos o que é. Procuramos salvação onde não sentimos o nosso coração. Somos tanto que não nos reconhecemos. E, mesmo assim, queremos ser quem nunca seremos.

Queremos um mundo novo e continuamos a vestir velhos fatos. Fatos já rotos e remendados pelo sofrimento que já nos pertenceu. Queremos um mundo novo, usando a mesma vida. A vida em que demos tantas quedas e que não nos fez mudar.

Não percebemos que o novo tem que (re)nascer de nós, das entranhas da nossa alma. Temos que lavar a cara e olhar para o que a vida já nos deu. No meio de tudo isso estarão, por certo, as novidades que procuramos. Estará aí o melhor de nós, que não valorizamos.

Há que escutar o coração. Ouvir a sua voz que não tem tradução. Sentir o amor, que é um idioma universal, uma linguagem que todos entendemos. O amor é o idioma do coração e só se pode escutar em silêncio, observando o rosto e percebendo os gestos.

É aí que encontramos o novo mundo que já nos pertence. O mundo, que poucos de nós entendem, porque não se olham, apenas se procuram nos futuros que só chegarão no momento certo. A vida é dona do tempo que nós queremos eterno. É ela que sabe a medida de cada curva dessa espiral que trazemos connosco.

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ANGELA CABOZ, a miúda gira
Nasceu em Tavira há 49 anos. Desde a adolescência que é uma apaixonada pela leitura, pela escrita, pelo cinema e pela música. Escreve sobre sentimentos e, nas palavras, reflete a maneira de ver e de sentir o mundo. Em 2014, realizou um sonho: a publicação do seu livro «À procura de um sonho». Desde então, tem participado em várias obras coletivas.