O último a sair que feche a porta

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Fotografia @ Pixabay | Cartaz © Laura Almeida Azevedo

Sentada no pontão do cais, ela apreciava o voo das gaivotas, que tanto desciam a pique até ao mar, como subiam velozmente de encontro ao céu. O seu grito, já tão familiar, desta vez soava aflitivo, a mau prenúncio.

Sacudiu a cabeça. Ela e o seu pseudo sexto sentido.

Via o mundo mudar. Parecia que havia um retrocesso na evolução humana. Na mentalidade, nas vontades. A tecnologia continuava a evoluir, mas a sociedade estava a andar para trás. Comportamentos discriminatórios, crueldade indiferenciada, que antes caminhavam numa evolução positiva, voltavam a agravar-se. Não há tolerância, não há paciência. Os comportamentos são extremistas. Falta mais empatia, num mundo onde o egoísmo domina. E a miopia também. Não se vê nada para além do umbigo de cada um.

Onde é que embatemos para estarmos agora a recuar?

O mundo assiste a tantas convulsões simultâneas. É como se estivéssemos a andar no arame, enquanto assistimos às lutas de ego entre países e os seus líderes. Parece que nos esquecemos que vivemos sob o mesmo teto. Que o mundo é só um. E estão tão distraídos pelas suas guerras e disputas infantis, que não se apercebem, que são tão fracos perante a maior das forças. A da Natureza.

Ela grita, mas todos fazem ouvidos de mercador. Acham-se intangíveis. Que o poder os manterá a salvo. Que só acontecerá aos outros. Mas o ecossistema é só um. Um simples atchim no polo norte pode fazer tremer um planeta inteiro.

A brisa que lhe tocava era estranha. Era quente e seca, mas arrepiava-lhe a pele. Costumava dizer que aquele tempo metia medo. Quem a ouvia achava-a doida. Havia qualquer coisa que a fazia encolher-se dentro de si. Não sabia explicar o quê, nem porquê. Estávamos em finais de Novembro e o sol baixo queimava a pele. Normalmente, teríamos as nuvens para atenuar a incandescência de um sol de outono, mas agora não. Olhava para a montanha atrás de si. Onde antes se via um verde vivo, via-se agora um castanho, pontuado daquele verde baço dos eucaliptos.

Tinha saudade do cheiro a terra molhada e do perfume dos pinheiros.

A rocha desprendia-se facilmente porque nada a segurava. A água de rega escasseava. Não era um ano anormal. Este era o novo normal.

Enquanto as pessoas andam distraídas a defender o seu ego e os seus pontos de vista fundamentalistas, o mundo muda. E nós estamos indefesos. Os que têm meios para ajudar a mudar não querem saber. Os restantes sujeitam-se, porque não tem o poder suficiente para os obrigar. Os primeiros serão os últimos a passar dificuldades. Os segundos já passam. Enquanto não os atingir, não haverá mudança. Enquanto os lunáticos com poder não sentirem na própria pele, nada irá mudar. Mas aí poderá ser tarde. Porque já a maioria estará a padecer e o mal pode já não ser reversível.

Não somos nada sem esta casa. O teto é o mesmo, para o rico e para o pobre. Mas há quem se ache imune. Há de haver fome, escassez de alimentos e preços a subir. Podemos importar. Mas e quando não houver de onde importar? Nem dinheiro para isso? Aonde iremos bater?

Somos parasitas e a terra neste momento está a tentar livrar-se de nós. Revolta-se. E com razão. Somos demasiados. Mal agradecidos. E exigimos-lhe demais.

Quando já não houver como ou para onde fugir, o que acontecerá? Será cada um por si? Ou, finalmente, unir-nos-emos nesta causa comum? Será o fim do mundo ou apenas o fim do mundo como o conhecemos?

Achamos sempre que o problema será da geração seguinte. O último a sair que feche a porta. Mas já não é. O desafio agiganta-se perante os nossos olhos, mas recusamos a vê-lo na sua plenitude.

Ela olhou para o seu ventre. Sentia-se egoísta por ter cedido ao desejo da maternidade. Não queria trazer o seu filho para aquele mundo sem futuro. Mas perguntava-se se o seu filho não faria parte da geração de um novo mundo. Mais frugal, mais simples e mais em comunhão com a natureza, apesar da avançada tecnologia.

Essa era a sua esperança. E a nossa.

De que é que ainda precisamos para acordar?

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ANA PEREIRA, a inquieta
Nasceu numa noite estival, mas tem alma outonal. Convive com os números, mas encontra refúgio nas palavras. Aparenta serenidade, mas governa-a uma mente deveras inquieta. Se lhe perguntarem, é assim que se define a si própria. Aliás, estas foram palavras dela.