O rapaz que oferecia abraços

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Fotografia © Aman Shrivastava

Quer fizesse sol, quer fizesse chuva, a chilreada era sempre intensa assim que as portas se abriam para deixar à solta as impacientes avezinhas. À toa, saltitavam, precipitando-se efusivamente no espaço que, à sua frente, se abria para lançarem ao vento as suas sonoras melodias. Verdade seja dita, graciosamente, desalinhadas. Rapidamente, cobriam os espaços livres que a escola lhes oferecia e que tanto haviam cobiçado, enquanto o tempo marcara, severo, as tarefas do dia. A liberdade de ser chamava por elas, com uma tal intensidade, que a sua juventude negava-lhe a mais ínfima possibilidade de lhe resistir. A perspetiva do encontro abria, então, alegremente, de par em par, as portas cabisbaixas com o não dissimulado rasgo de indiferença que as atingia. Apesar da desorientação que as assaltava, era vê-las, corajosas, levantarem voo entre sonoros vivas à vida. Na balbúrdia ruidosa, muitas delas adiavam a investida, mantendo-se em revoadas, que deixavam em suspense o momento que, a passos largos, se aproximava. Não tardaria a que o tempo abrisse as asas e o espaço se tornasse reduzido para tantos sonhos. Enquanto algumas gostavam de sonhar sozinhas, outras preferiam a companhia segura para partilhar o sonho que sonhavam em segredo, e outras, ainda, mais decididas, logo arregaçavam as mangas para construir a realidade que, uma vez, haviam sonhado. Entre todas elas, só o João optava por voos rasos, mas nem por isso menores, deixando pelos que passava um abraço sentido que, raramente, escondia a surpresa em quem o recebia. O João, de sorriso fácil, entregava-se ao presente com todo o seu coração, oferecendo generosos e inesperados abraços. E como ele se divertia ao surpreender os que não o esperavam.

No recreio da escola, o João laborava, incansável, as suas emoções crendo que ali era livre de abraçar os seus companheiros de jornada, com um sorriso no rosto e palavras gentis aos que lhe retribuíam o gesto com uma palavra amiga. Indiferente aos afazeres de todos, era comum vê-lo a passear, pelo recreio da Escola, pachorrento, anunciando, com um sorriso sonoro, aos que neles ainda sobreviviam dúvidas, que era bem mais fácil distribuir abraços do que resolver todos aqueles exercícios difíceis que a professora, tão seriamente, lhe entregava, numa monótona folha de papel. Não era raro que o João não lhes conhecesse os nomes, mas reconhecia todos os que não lhe negavam um sorriso de volta. A sua gratidão era tão grande que logo um abraço desferia antes que o visado pudesse escapar aos seus braços feitos tenazes. Num rompante, uma onda de gratidão se elevava, no abraço que entregava. Era o seu sonho tornado realidade. Inegavelmente, sentia-o. Os seus olhos pequeninos não o escondiam. E, se alguém ousasse recuar, logo o seu corpo, grande e balouçante, se agitava para com mais um abraço persuadir a tão extravagante cumprimento. Os mais velhos descobriam no João a nostalgia da criança inocente que um dia haviam sido. Muitos dos seus sonhos de infância haviam-se diluído pelo caminho e o João despertava-os, envoltos numa alegria pura e contagiante. Os mais jovens sorriam. Divertidos, alguns. Outros, complacentes. Bastantes, dominados pelo medo de tão grande intimidade, escudavam-se na frieza. Todos os dias. Como se não se vissem há anos. O João exagerava. Não havia paciência. Só o João discordava. Ele tinha toda a paciência do mundo. Do tamanho do seu abraço.

Na escola, ninguém se ria do João, mas muitos exasperavam-se com os seus abraços. Quando o afastavam, o João que não sabia oferecer a tristeza no encontro. Bem tentava explicar-se, mas não era capaz. Os seus ombros descaiam perante a recusa e as palavras de revolta que nem sempre continha, pela incompreensão do seu gesto, levava para longe do João os que não gostavam de ser abraçados. Não havia semana que a Escola não se agitasse num mar revolto de rostos que se voltavam em busca do som ruidoso que os escoltava. Rapidamente, a apreensão, inicialmente, curiosa era substituída por sorrisos que descontraiam os rostos, como se por um gesto de carinho tivessem sido atingidos. Mais afastados, outros repetiam, quase em perfeita sincronia, os mesmos movimentos. Em pouco tempo, sorrisos despontavam, em todas as direções e os que não se conheciam passavam-se a conhecer. O João não sabia disso. Os mais distraídos, perguntavam, curiosos:

— O que é que se passa?

Vozes respondiam, num encolher de ombros e, sem desviar o olhar dos seus entreténs, exclamavam complacentes:

— É o João!

— Oh! – o habitual adivinhava-se nas palavras que não eram ditas. E voltavam as costas sem perguntar a razão, porque ela era sobejamente conhecida de todos. O João abraçara alguém que se insurgira pela invasão não autorizada.

Embora ninguém duvidasse que o João adorava oferecer abraços, o seu gesto não era consensual. Facilmente originavam ecos de discórdia só porque o seu entusiasmo asfixiava os que os recebiam, de supetão. Quando assim era, o corpo do João dobrava-se triste e os seus braços pendiam desanimados com o alarido. O corpo perdia a força e deixava de balouçar. E os seus olhos fugiam para longe. Não compreendia a fúria que causavam os seus abraços. A professora dizia-lhe que fazia muita força. O João encolhia os ombros, acabrunhado. Aquelas palavras não faziam sentido, ao contrário dos seus abraços grandes e sorridentes.

— Ó João, o que é que tu fizeste desta vez? – Alguém, que conhecia a resposta, perguntava-lhe com carinho, tentando animá-lo. O João entristecia e o seu corpo grande tornava-se um tudo ou nada menor. A cabeça inclinava-se sob o peso da acusação e os seus olhos desciam até ao chão que deixava de vibrar pela força dos abraços, para gemer com as acusações que recaiam, sobre si, em catadupa. Alguma coisa, impercetível, o João dizia. Ele não gostava de confusões, apenas de abraços. O João esboçava, então, conformado, um pequeno sorriso e pedia desculpa.

— Está bem, professora! – Dizia, estranhamente, envergonhado.

O João ainda não descobrira o que lhe era impossível negar: a autenticidade do que lhe pertencia na manifestação espontânea do seu abraço. Era um presente divino que se queria aceite com o respeito que merecia a sua essência. Pura.

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ANA SANTOS, a gaivota
A vida fez com que ousasse pegar numa caneta e num caderno e nele viajar pelo mundo das palavras escritas sonhadas. Primeiro a medo, depois com menos receio, deu por si a relembrar-se do prazer que já em criança sentia pela escrita. Com uma licenciatura em Físico Química, não causará estranheza que a natureza seja o seu porto de abrigo. Adora estar em contacto com a natureza e é nela que encontra algumas respostas para os seus desassossegos, sem se sentir culpada, mas sempre abraçada.