Esta sou eu

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Fotografia @ Pixabay | Cartaz © Laura Almeida Azevedo

Nada é evidente. Nada é tão claro como os nossos olhos julgam ver.

São tantos os que olhos que se fixam em mim e, na realidade, poucos serão os que chegam a saber quem sou. Serei apenas mais uma no meio de uma multidão. Sou um corpo, decorado com alguns trapos coloridos. Um corpo pode transmitir uma imagem totalmente diferente, de tudo aquilo que, na realidade, eu sou. Os trapos que me cobrem podem não deixar ver o coração que mora dentro de mim. Em boa verdade, é o meu coração que me define. É ele que determina a forma como amo, a maneira como me dou aos outros, a maneira como eles se encaixam em mim.

Ninguém vive só de aparências. Os corações não têm rostos. As almas não estão visíveis aos olhos do mundo. De que me serve ter cabelo curto, se as minhas dúvidas, mesmo assim, se agarram à mente que não se deixa cair com um simples sopro da brisa primaveril que se sente lá fora? Posso ter olhos verdes, mas não são eles que vão aprender a ver o lado de dentro do coração. Os meus olhos, que mudam de cor conforme o tempo, vão ter que pedir sempre ajuda à intuição, para que seja ela a indicar-lhes qual a rota que devem seguir.

A aparência é apenas uma ilusão de quem quer ocultar realidades, com detalhes que não passam de banalidades.

Eu sou eu. Diferente de todos os outros que estão no meio desta multidão. Sou tão eu, que, às vezes, nem eu própria me reconheço. Sou cheia de dúvidas e procuro certezas, caminhando pelas veredas apertadas da vida. Vou dando passos curtos, sempre com receio do quem possa encontrar ou, quem sabe, com medo que me possa perder.

Eu sou este ser em constante mudança. Sou um ser em constante construção. Sou feita de pequenos nadas que a vida me vai oferecendo e de migalhas que o amor vai espalhando nas ruas frias e desertas, onde caminham aqueles que jamais saberão quem eu sou. Sou tanto e, afinal, sou quase nada.

De que me valem as jóias que posso exibir, se é dentro de mim que mora a riqueza que não procurei? Se é em mim que está o tesouro que encontrei e que não pretendo andar por aí a mostrar?

Se sou alta ou baixa, tanto faz. Conseguirei sempre chegar longe se parar para escutar o meu coração. Se sou loura ou morena é só um mero detalhe. As almas não tem cor. São feitas de e para o amor.

Eu sou esta que aqui está. A que descobriu que o tempo não passa. O tempo vive-se. Que o passado é para ser lembrado e que o futuro é para ser sonhado. Sou a que é feita de sonhos e a que sonha para não deixar de viver.

Se nada é evidente, eu não serei diferente, porque me visto com as evidências que encontrei neste mundo por onde vou passando. Visto-me com a alegria que vou encontrando e alimento-me do amor que recebo dos que comigo se cruzam.

Viver é essa troca de experiências. É partilhar amor para que a memória nos impeça de sentir a dor. Esta sou eu, a que ama todos os que guarda no seu coração.

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ANGELA CABOZ, a miúda gira
Nasceu em Tavira há 49 anos. Desde a adolescência que é uma apaixonada pela leitura, pela escrita, pelo cinema e pela música. Escreve sobre sentimentos e, nas palavras, reflete a maneira de ver e de sentir o mundo. Em 2014, realizou um sonho: a publicação do seu livro «À procura de um sonho». Desde então, tem participado em várias obras coletivas.