E se eu morresse hoje?

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Fotografia @ Pixabay | Cartaz © Laura Almeida Azevedo

Por vezes, a vida coloca-nos em situações em que quase vês a morte à frente. E faz-nos pensar, por breves segundos, que chegou a nossa hora.

Hoje foi um desses dias. E, depois, já em segurança, num choro compulsivo passaram-me mil e um pensamentos pela cabeça.

Se eu morresse hoje, sentirias a minha falta? Ter-me-ias dito tudo aquilo que gostarias? Terias lutado por mim?

Se soubesses que eu morreria hoje, ter-me-ias dado mais um abraço na última despedida? Um beijo apaixonado? Ou um «amo-te» nunca antes dito?

Se eu morresse hoje, teria feito diferença na tua vida? Lembrar-te-ias de mim com saudade, com raiva, com amor, com tristeza?

Sim, primeiro pensei em ti. Como te sentirias se eu morresse hoje?

Depois, questionei toda a minha vida.

Terei cumprido a minha missão? Se morresse hoje, qual teria sido a minha missão nesta vida? Porque, no dia de hoje, acho que tenho ainda tanto para mudar. Em mim e no mundo! No dia de hoje, acho que ainda tenho tanto para dar às pessoas. Fazer a diferença na vida de cada uma que se cruzar na minha vida.

Terei cumprido os meus sonhos? Definitivamente, não! Mas também quantas pessoas terão morrido com todos os sonhos concretizados? Não acredito que haja alguém. Nós temos sempre sonhos por concretizar. Só assim há motivação para viver… Mas e se alguém decidiu morrer porque já não tinha essa motivação? Terá concretizado todos os seus sonhos? E não deveria eu e todos os outros ter a oportunidade de decidir quando já não precisamos de sonhar mais? Tolices da minha cabeça, eu sei… Só sei que ainda tenho muitos, mesmo muitos, sonhos por concretizar.

Se eu morresse hoje, terei feito o suficiente? Terei dito às minhas pessoas o quanto gosto delas? Terei dado os beijos, os abraços, os sorrisos suficientes? Terei feito sempre o melhor que sabia em qualquer circunstância? Terei usado as palavras de forma justa? Terei agido sempre de boa fé? Terei feito a diferença neste mundo?

Será que alguém ainda se lembraria de mim daqui a uns anos? Não sei… O que sei é que vale a pena reflectir e fazer este exercício de «e se eu morresse hoje?» para que possamos ter consciência da pessoa que temos sido. No sentido de nos melhorarmos. Com o objetivo de não deixar nada por dizer, nem fazer, quando se trata de dar amor e de valorizar aqueles que nos rodeiam. Que não devemos deixar de agir com atos de solidariedade, compaixão e justiça, na luta por um mundo melhor.

Se eu morresse hoje, teriam ficado muitos sonhos por concretizar. Mas muitos outros realizados, que eu nunca pensei alcançar. Teria ficado muito por fazer. Mas também muito foi concretizado, numa vida que foi vivida intensamente, num equilíbrio de adversidades e momentos bons.

Se eu morresse hoje, sei que uma parte de ti também morria. De ti e de todos aqueles que gostam de mim. E se do outro lado, que ninguém sabe como é, eu tivesse sentimentos… depois de morrer o meu corpo, morreria a minha alma. Por não te ter a ti. Por não ter cada uma das pessoas da minha vida. Morreria outra vez, com dor de saudade.

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CARINA MAURÍCIO, a fotógrafa
É budista e conservadora-restauradora. É de riso e choro fáceis. Tem tanto de sensível, quanto de corajosa e lutadora. Adora fotografar, jogar ténis e viajar. Viciada em comida, é fã de comida italiana. Gosta de dormir, de café, de chocolate. Dançar? Pode ser a noite toda. Mas também gosta de ficar na ronha, em casa, entre filmes e pipocas. Adora o som da chuva a cair no inverno e o som do mar em dias de verão. Campos floridos enchem-lhe o olhar, assim como as cores das folhas do outono. Apaixona-se facilmente e é uma apaixonada pela vida. Uma geminiana pura.