Enredos da vida real

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Fotografia © Alesia Kazantceva | Cartaz © Laura Almeida Azevedo

Porque é que há tanta gente que se incomoda com o bem-estar alheio? Porque não olham para o próprio umbigo em vez de apontar o dos outros? Porque é que, em vez de perderem o seu tempo a destrinçar e especular sobre a vida alheia, não o tentam fazer com a sua? Tentar perceber o que podem mudar para ter o que tanto invejam na vida dos outros.

É minha teoria que só nos incomoda nos outros aquilo que desejamos para nós. Que só se dá demasiada atenção à vida de quem nos rodeia se estivermos deveras insatisfeitos com a nossa. Ou, pior, focamo-nos nos outros, porque não conseguimos achar nada de mais interessante e de gratificante para fazer. Porque é mais desconfortável olhar para dentro de nós, do que simplesmente olhar para o lado e distrairmo-nos a pensar naqueles que por nós passam.

São pessoas que vivem sob aquela máxima: se eu não tenho, os outros também não podem ter. Roem-se de inveja, quando quem está ao seu lado se dá bem e têm prazer quando essa pessoa tropeça. Alguma vez pensaram que, se calhar, o que é melhor para os outros não é o melhor para si? Afinal, todos somos diferentes, não é? Ninguém gosta nem quer exatamente tudo o que o outro é ou tem. É impossível. Serão essas pessoas tão vazias de essência e de personalidade própria que não conseguem sequer questionar isso?

O mais irónico é que muitas delas nem sequer se interrogam sobre o que realmente querem. Ou se estão dispostas a pagar o mesmo preço que os outros pagaram para terem o que têm ou serem o que são. Ninguém tem uma etiqueta colada na testa a dizer que «me fiz no sofrimento» ou que «a minha sorte caiu do céu». Que luta arduamente para o que tem, sacrificando coisas que outros, se calhar, não estariam dispostos a sacrificar. Só olham para o prémio, mas ninguém pergunta o quanto custou. Nem tudo é sorte, nem fruto do acaso. Há casos e casos.

Ninguém é imune à vida alheia, óbvio. Mas há gente que parece que não sabe estar na vida ou em sociedade de outra forma. Com as suas línguas viperinas, especulam, intrigam, acrescentam pontos que não existem, levam e trazem. Destabilizam. Não sabem viver de outra forma. Não sabem que isso é doentio, que é um comportamento obsessivo. Que é sinal de que algo está errado consigo e não com os outros. Que só eles podem mudar isso. Que nem tudo o que lhes acontece é culpa de outro.

Mais triste é quando nos deixamos cair nesta teia. Não é fácil evitar levarmo-nos. Chega a ser desgastante, cansativo, estar num ambiente assim. Tenhamos espírito crítico. Não acreditemos em tudo o que nos contam. De uma simples frase se constrói uma novela inteira. Não estavam lá, não viram, não viveram, não inventem. Tentemos calçar os sapatos de quem nos fala, por um momento. Não alimentem o enredo. Quebrem a teia. Quem o faz, em relação a outro, quer por frustração própria, quer porque tem algum objetivo oculto, também um dia o poderá fazer em relação a ti.

As pessoas que têm este perfil têm medo de olhar para si. E por isso, às vezes até, sem terem consciência disso, fazem mal ao outro (porque ninguém é de pedra) e fazem ainda pior a si próprios, porque o tempo que dispensam para o outro é tempo que perdem para si.

Vai uma grande distância entre um desabafo espontâneo e uma intriga propositada, mas qualquer um dos dois pode provocar estragos. Questionemos mais. Aos outros e a nós próprios. Nem tudo o que parece é. Muito menos o que se ouve.


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ANA PEREIRA, a inquieta
Nasceu numa noite estival, mas tem alma outonal. Convive com os números, mas encontra refúgio nas palavras. Aparenta serenidade, mas governa-a uma mente deveras inquieta. Se lhe perguntarem, é assim que se define a si própria. Aliás, estas foram palavras dela.