Amar devagarinho

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Fotografia @ Pixabay | Cartaz © Laura Almeida Azevedo

O amor vem devagarinho. Vem, pé ante pé, e instala-se de mansinho. Não atropela. Não derruba. Não chega a matar.

O amor cresce naturalmente, desenvolve-se sem químicos nem fertilizantes. Só tem que ser cuidado com carinho e dedicação, como uma árvore.

O amor não é chama explosiva, que consome o ar em seu redor e queima. O amor é lume brando, que cozinha lentamente, e saboreia-se também. É a brasa que aquece e conforta os corações.

O amor é uma permanente descoberta, aprendizagem e adaptação. Todos processos lentos que requerem persistência e paciência. E tempo. Nada acontece de um momento para o outro. O amor não combina com precipitação e efemeridade.

Amar devagarinho é construir com cuidado. É dar um passo de cada vez. É saber quando abrandar o coração mesmo quando se sente a urgência no seu bater.

Uma casa, mesmo quando acabada de construir, leva ainda o seu tempo a assentar no solo. E, por vezes, apesar de nova e bonita, ao fim de poucos anos começam a aparecer as fissuras. Nalguns casos, estas serão pontuais e quase impercetíveis. Noutros, nem por isso. Aparecem bem visíveis e profundas. No primeiro caso, a construção foi ponderada e cuidada nas suas escolhas. No segundo, algo não correu bem. Se calhar, o terreno não era o adequado, as fundações foram descuradas ou a construção foi de má qualidade.

Ou seja, para descobri o amor é preciso tempo. Só o tempo revela-nos a sua verdade, desvela os seus mistérios. Para aprender a amar é preciso estar atento. Nada se pode decidir da noite para o dia. Nada acontece num piscar de olhos.

É impossível viver numa constante adrenalina. É preciso lidar com os dias. Estabilizar o ritmo. A intensidade em demasia cansa depressa, é mais desgastante. Ninguém quer amar em flatline, mas não podemos estar num permanente estado de taquicardia. Até porque isso também nos distrai. Faz-nos perder momentos deliciosos, e outros pormenores que só a serenidade traz. E o tempo.

Amar devagarinho é criar algo que permaneça. É paciência e sapiência. É respeito. É respirar fundo quando apetece gritar. É ficar quando apetece fugir. É trabalhar em equipa para um objetivo comum. É cuidar e manter para que a casa resista às agressões exteriores. Uma casa cuidada resiste mais tempo. E ao tempo.

Amar é uma lição do tempo e o tempo não tem a nossa pressa. Por isso, aprendamos a amar. Devagarinho.


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ANA PEREIRA, a inquieta
Nasceu numa noite estival, mas tem alma outonal. Convive com os números, mas encontra refúgio nas palavras. Aparenta serenidade, mas governa-a uma mente deveras inquieta. Se lhe perguntarem, é assim que se define a si própria. Aliás, estas foram palavras dela.