Quando a realidade mais parece ficção…

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Fotografia @ Pixabay | Cartaz © Laura Almeida Azevedo

Aquele olhar trazia o brilho da esperança. Aquelas palavras traduziam felicidade:

— Maria, doce Maria! Ele abraçou-me! Ele beijou-me! Ele disse que me ama!

Vivíamos numa época de tabus, de proibições… Havia abusos permitidos e, por vezes, puniam-se as vítimas.

Ela era mãe, uma mãe sofredora, já que a sua menina não tinha pai. Era filha de pai incógnito. Usava-se, sim, a palavra incógnito quando cobarde seria a mais correta, a mais adequada.

Era, pois, uma cobardia permitida. Castigava-se a mãe, a «mãe solteira», por ter acreditado. Pior ainda, castigava-se a criança que seria acompanhada durante toda a vida pela nódoa negra: «filha de pai incógnito».

Era uma vida dura e cruel. Tínhamos uma sociedade preconceituosa e punidora, que ostracizava mãe e filho. Aquela criança seria sempre filha do pecado. Aquela mãe seria sempre uma pecadora.

Assim me vi perante um drama de vida naquele ano, naquela escola, no início da minha carreira profissional. Ato contínuo à minha apresentação, vieram as instruções: Não deveria relacionar-me com determinada colega. Ela era uma perigosa companhia devido ao seu comportamento altamente duvidoso. Era uma mãe solteira.

— Tenha cuidado! Não queira ser vista na companhia dela. Correrá o risco de ver a sua reputação comprometida. Toda a gente a conhece pela sua má conduta…

Na verdade, eu era a colega caloira. Poderia parecer, até, algo indefesa. Pela primeira vez, saía da minha zona de conforto e viera para a grande cidade. Estaria a ser vista como aquela «criaturinha frágil» a precisar de proteção? Puro engano! Estava apenas a ser usada. Eu seria apenas mais um estratagema, mais uma arma de arremeço para reforçar a humilhação e o desprezo naquela que era o alvo a abater! E, grande ironia, vi-me lançada à «fera» após me terem avisado da sua maldade!

Pois bem, a cerca de quinhentos metros do edifício principal da escola, havia uma pequena dependência com duas salas de aula. Aí, fomos colocadas as duas: eu e a colega com quem não me devia relacionar. Confesso, num primeiro impacto, fiquei algo receosa. Como deveria comportar-me?

Acontecia, porém, que não era tão ingénua como poderia parecer. Não precisei de muito tempo para perceber que estava perante alguém que tinha uma vida sofrida, vítima de uma crueldade onde imperava a hipocrisia. Assim, cedo me deixei conquistar por aqueles olhos tão lindos, aquele olhar tão meigo. Cedo me deixei conquistar por um coração sofredor, mas tão rico de bondade!

Nasceu, sim, uma linda amizade que ficou para sempre. Nasceu aquela forte cumplicidade que sempre nos uniu nos bons e maus momentos. Ríamos e chorávamos. Partilhávamos alegrias e tristezas. Nos nossos sofrimentos íamos fortalecendo aquela esperança de que a vida nos havia de compensar. O nosso lema era não desistir nunca dos nossos sonhos. Ambas sonhávamos muito!

Havia aquela Igreja dos Capuchinhos onde ela procurava alguma paz, conforto e proteção. Ali, ela sentia que era aceite e respeitada. Com alguma frequência, ela refugiava- se em momentos de confissão. Eram os momentos em que o sofrimento mais pesava, em que mais necessitava de palavras de conforto. E o inesperado aconteceu…

Aconteceu aquele dia em que não recebeu apenas palavras de conforto. Recebeu amor!

— Maria, doce Maria! Ele saiu do confessionário para me abraçar!

Ele era aquele jovem frade capuchinho. Também ele foi conquistado por aquele doce sorriso, aquele coração tão generoso!

— Maria, doce Maria! Ele diz que me ama!

Sim, nascia desta forma um amor! Um amor que tinha tanto de belo como de difícil. Um amor, também ele, altamente proibido. Assim, a sua realização plena quase parecia impossível de alcançar… E, sim, manteve-se secreto durante algum tempo.

Vivíamos numa sociedade intolerante. Não era fácil esperar uma aceitação. Havia enormes barreiras a transpôr. Um grande amor não pode ficar escondido. Um grande amor tem que ser vivido sem medos. Não faltou a coragem! Quando o amor é forte, não conhece barreiras. Foi o caso!

Foi grande a luta. Foi grande a determinação! Foram bastantes os obstáculos, mas não houve desistência! O amor saiu vencedor!

Houve uma criança que ganhou um pai que sempre a amou!

Houve uma mulher que encontrou o amor.

— Maria, doce Maria! Vamos casar!

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MARIA REIS, a avó-sorrisos
Ela não é uma mulher rica. É, sim, uma rica mulher! É dona de um coração generoso, que já ultrapassou sofrimentos, mas também sabe muito sobre o amor. É sonhadora: os sonhos estão sempre lá e o seu percurso de vida foi-se construindo com a realização de muitos deles. Desafios? Sim, aceita-os com determinação e entusiasmo. E, como alguém disse, «às vezes, é uma caixinha de surpresas».