Ao meu querido Pinhal d’El Rei

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Fotografia @ Pixabay

Chamaste por mim. Não te estranhei. Reconheceria a tua voz em qualquer lugar. Inconfundível. Clara. Transparente. Calma. Viva. Pediste-me para ficar, ainda, uma vez mais, junto de ti. Não era difícil. Também eu desejava fazê-lo. E, como tantas outras vezes, fui ao teu encontro. Sem pressa. Eu sabia que esperarias por mim, mesmo se eu me atrasasse. À medida que a distância ao teu coração encurtava, o meu ficava em pesaroso sobressalto. Porém, o chamamento era mais forte. E tenho a certeza que desta vez soluçavas. Não. Não te iria faltar. Como o poderia fazer, quando sempre estiveste presente para mim? Quis acreditar, porque o céu estava azul e o Sol brilhava, que nada mudara. Tu estarias, no lugar de sempre, à minha espera para mostrar-me o que de mais belo Deus ofertou ao Homem – e o Homem, grato, aceitara para deixar cair as sementes que o teu chão recebeu com carinho e ímpetos de criatividade nunca vistos. Um gemido soltou-se-me. Precisava de me apressar. O meu coração entristecia porque adivinhava a tua ausência anunciada. Continuavas a chamar por mim. Sorri contrafeita com o teu anseio. Mas rapidamente o meu sorriso se extinguiu no fogo que de mim te roubou, quando te alcancei. Apenas a alma do que foras permanecia. Esperei por ti. Mas não vieste.

Em segredo, fui ingénua quando pensava que era apenas por mim que esperavas. Gostava da ilusão dessa exclusividade. Era inofensiva. Para ti. E para mim. Junto de ti tudo se tornava perfeito, apesar de toda a imperfeição que te entregava. Junto de ti, a beleza imergia na diversidade que encontrava. E eu determinava que, só por isso, o mundo devia ser feliz. Junto de ti, eu não escondia as minhas fraquezas. Tu alindava-as, como só tu sabias fazê-lo. O teu vento era mestre ao pentear o meu cabelo num desalinho ímpar e único. E como eu gostava do teu toque. Tu eras, naturalmente, lindo. Sem artefactos inúteis, a beleza pulsava em cada pedacinho de ti e só não via quem não queria. Junto de ti, recuperei o olhar da criança que, um dia, fui. Renascer por conta de um olhar que tudo pode e tudo alcança. Nos teus entrelaçados caminhos, onde acreditei que me desafiavas para o jogo do esconde-esconde, eu encontrava-te. Sempre. Tu deixavas que eu me julgasse perdida, mas a tua mão nunca me largou. Junto de ti, eu encontrei-me. Corajosa. Junto de ti, seguraste o meu rosto molhado e elevaste-o até à árvore mais alta do teu reino. De lá não vislumbrei os limites. E eu voltei a acreditar. O teu verde garrido devolveu-me a esperança. Conhecias, como ninguém, o sentimento atroz da afronta. Mas o teu corpo sempre reagiu para o transmutares: forte e viçoso. Uma paleta de verdes cobria-te, e do verde se fez a esperança na paz que a humanidade almeja.

Na vida que de ti brotava, eu aprendi a ler-te nas cores que escolhias para te vestires. A criatividade era o dom divino que te fora oferecido e tu honrava-lo como ninguém. Perto de ti, deixavas confusos os meus sentidos, quando me surpreendias com inesperados e frágeis rebentos que cresciam, seguros do lugar que haviam escolhido. Era o puro deslumbramento. Quantas vezes, não soube dar-lhes os seus nomes de batismo, mas nunca mais esquecerei as suas formas, as suas cores, os seus frutos. Tanto por aprender. Tanto que tinhas para ensinar. Os meninos vão ouvir falar de ti, mas não reconhecerão a tua luz. Soberba. Não reconhecerão as tuas sombras. Frescas. Não reconhecerão os sons escondidos na irrequietude da passarada que te escolhia para abrigo. Como poderão, alguma vez, reproduzi-los? Os teus aromas volatilizados perderam-se, tragicamente. Zangados, os meninos decidirão marcar um duelo, mas depressa descobrirão a ausência dos teus jovens ramos e o duelo será cancelado. Quem os ensinará a lutar pelos seus sonhos, como tu me ensinaste? Nunca te riste de nenhum deles. Acreditaste em todos. Conheceste todos os recantos do meu coração e, gentil, revelaste-me as tuas preciosidades, dignas da tela de um ilustrador de histórias de reis e rainhas, príncipes e princesas. No ribeiro, os meninos não molharão mais os pés, mas à noite, antes de adormecerem, as suas mães contar-lhes-ão histórias do Vale dos pirilampos. Já estou a imaginar os seus olhitos extasiados, e os seus rogos insistentes: – Conta mais! Conta mais!

Imóvel, não deixo de te sentir. Onde estás? Apenas encontro o vazio frio e duramente silencioso. Para onde foste? Em meu redor, o negro cobre o teu chão e as tuas suaves encostas, despudoradamente desnudadas, desorientam-me. Desta vez, o gesto foi impiedoso e tu sucumbiste. Não porque não fosses valente. Em ti, viviam os bravos pinheiros que amaciavam os corações dos que te procuravam para se reencontrarem. As línguas de fogo que os devoraram violentaram a suavidade dos seus modos, na ganância obstinada de consumir e tudo tomar. Os teus bravos guerreiros permanecem de pé. Dignos, na tragédia que os atingiu. Nos seus ramos, hirtos, imobilizados no tempo, vislumbro o fogo ardente que não os derrubou, mas que os amortalhou. Cruel. A doçura dos pinheiros mansos não se extinguiu do seu tronco que, agora, não esconde os seus ramos voltados aos céus, provavelmente, num último grito de agonia, suplicando por misericórdia, na atrocidade malévola que os atingiu. A malvadez das línguas de fogo não se quedaram perante a sua formosura, inigualável. Enganem-se se creem que ficarão esquecidos. Jamais. Nada os extinguirá da lembrança de quem os conheceu. Os seus modos amorosos reproduzir-se-ão nos gestos de todos os que os conheceram para a sua memória perpetuarem. E, em cada abraço que entregarem, renascerá a bondade amorosa de um pinheiro manso.

Pequenas brumas esvoaçam, tristemente, rasteiras ao chão, outrora cheio do tanto que tinhas para oferecer. Agora, apenas a cinza o cobre, despovoado de todos os animais que nele desbravaram caminho. O silêncio fere dolorosamente o olhar. E o coração chora com a tua ausência. Ainda não acredito que não te voltarei a ver. Tu nunca permitiste que me deixasse abater pela adversidade. Nos dias de chuva e frio, não te vergavas pela densidade do ar e algo de belo descobri para gostar ainda mais de ti: uma áurea de mistério envolvia-te e tornavas-te tão mais irresistível. As tuas árvores ancestrais, cheias de sabedoria, sussurravam-me que acima das nuvens havia um mundo radioso e deslumbrante para ser vivido. Era só preciso ter alguma paciência. Depois da tempestade, orquestravas a mais bonita peça musical. A folhagem vibrava com os raios de Sol que, em pontos estratégicos, a tocavam, o vento reproduzia vibratos por entre os ramos labirínticos que gostava de atravessar, a água do teu pequeno ribeiro reproduzia o farfalhar intermitente da tua folhagem que se desvanecia no espaço. Agora, as águas do teu ribeiro estão ausentes. E eu já não vejo transparência no futuro.

Desgostosa, parti. Sem desistir de te procurar. Sábio como eras, alguma solução terias encontrado para o que parecia irresolúvel. Todo o amor, que derramaste nas gentes que te visitaram e acarinharam, as chamas foram incapazes de consumir. Imbatível, ele sobreviverá no coração de todos os que não têm vergonha de te chorar. Porque tu eras uma expressão de Deus e isso somente se pode sentir. O teu amor permanece no olhar dos rostos dos que se sentem sufocar com a tragédia que sobre ti se abateu. O teu amor foi demasiado grande para que se apague para todo o sempre. Tantos trilhos abertos, tantas histórias passadas de geração em geração, tanta labuta que entregaste, tantos sorrisos que junto a ti escolheram descansar e agradecer, tantas travessuras que te entretiveram, tantos sonhos vividos, emoldurados pelas tuas lindas paisagens, não podem ter sido aniquilados, às mãos de um ato de malvadez. Eras demasiado grande para te renderes a tão incomensurável hecatombe. Perdurarás nos corações dos que te conheceram. Quando a saudade for grande encontrar-te-ei na praia para onde, desesperado, fugiste. Só a grandeza e a pujança do mar podiam ter-te libertado das garras do monstro que se apoderou de ti. Sim. Era chegada a tua vez de ser salvo. Os teus ramos verdes ficarão, eternamente, espelhados nas águas azuis do oceano, teu companheiro de jornada. Livres. Um dia, um rei ordenou que sustivesses o seu avanço para a terra não ser por ele arrastada. Agora, pela sua mão, foste amparado para que não fiques longe dos que nunca te esquecerão.

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ANA SANTOS, a gaivota
A vida fez com que ousasse pegar numa caneta e num caderno e nele viajar pelo mundo das palavras escritas sonhadas. Primeiro a medo, depois com menos receio, deu por si a relembrar-se do prazer que já em criança sentia pela escrita. Com uma licenciatura em Físico Química, não causará estranheza que a natureza seja o seu porto de abrigo. Adora estar em contacto com a natureza e é nela que encontra algumas respostas para os seus desassossegos, sem se sentir culpada, mas sempre abraçada.