Saber dizer «até já» é essencial

Fotografia @ Pixabay | Cartaz © Laura Almeida Azevedo

A minha vida tem-me obrigado a dizer muitas vezes «até já» (algumas por «destino», outras como resultado da vida que escolhi). Detesto a palavra «adeus». Para mim «adeus» significa «para sempre» e essa noção de «para sempre» não existe na minha forma de viver e sentir. Quer seja nas despedidas por ir embora, nas despedidas por escolher outro caminho ou nas despedidas, bem mais duras, devidas à morte de alguém que nos é querido, a palavra «adeus» não tem sentido nem utilidade. Em todos os casos, sinto que um «até já» é bem mais sentido e verdadeiro. Sei, bem no meu íntimo, que, de uma forma ou de outra, haverá um reencontro com as pessoas de quem me despeço naquele momento penoso. Até lá, e por nunca serem esquecidas, pertencem à minha vida, pertencem-me…

Desde muito cedo, aprendi a dizer «até já» às pessoas e situações de quem gostava. Não, não considero isso como algo de positivo, mas é apenas uma constatação. Ainda criança fui obrigada a despedir-me de pessoas que serão sempre das mais importantes na minha vida (fisicamente ausentes, mas sempre presentes numa forma menos terrena).

A vida que escolhi também me obriga a muitas despedidas. Despedidas de colegas que conheci num ano; de cidades ou vilas de que aprendi a gostar; de alunos que, por uma razão ou outra, me marcaram; de verdadeiras amizades que criei, durante todo esse tempo em que estive longe do meu lar e longe dos meus. Nas relações amorosas também fui «obrigada» a despedir-me algumas vezes. Por vezes, por opção minha, por perceber que determinada relação já tinha trilhado todo o caminho que poderia ser trilhado e que, por isso, tinha chegado ao fim. Outras vezes porque o outro terá pensado exatamente o mesmo. Não havia mais caminho a percorrer. Ou porque «o outro» terá verificado que o caminho a ser trilhado comigo seria bem mais acidentado e movimentado do que com outras pessoas. E, por isso, terá feito outras opções.

O certo é que as despedidas fazem parte da minha vida desde há muito. Têm sido muitas ao longo dos anos. E o facto de as ter iniciado tão jovem e de já o ter feito tantas vezes não me tornou mais hábil na questão das despedidas. Continuam a ser difíceis. Sinto que perco uma parte de mim sempre que me despeço de algo ou de alguém que me é caro. É uma ferida que fica ali, à procura de uma cura. Umas feridas são, obviamente, mais profundas do que outras. Umas curam porque somos naturalmente resilientes e aprendemos a superar as perdas. Perdemos uma parte de nós, mas criámos outros «bocadinhos» para superar essas perdas. Outras, aparentemente, ficam curadas. Criamos uma crosta que nos faz pensar que a cura chegou. Pensamos que superamos a dor e a perda. Mas facilmente percebemos que, por baixo dessa crosta, a ferida está lá. Basta pensarmos um pouco para percebermos que as brechas se abrem com uma facilidade enorme e que a ferida volta a sangrar. Com o tempo sangramos cada vez menos, é certo…mas, quando a crosta desaparece e deixa de sangrar, fica a cicatriz. E essa ninguém a consegue apagar. Está lá, como se fosse parte de nós. Não nasceu connosco, mas passou a fazer parte. No fundo, ocupa o espaço que a pessoa a quem tivemos de dizer «até já» ocupava.

Apesar de tudo o que referi, apesar das despedidas serem sempre muito difíceis (nunca nos tornamos uns profissionais dos «até já», independentemente de passarmos por lá muitas vezes), a verdade é que, com ou sem cicatrizes, temos de aprender a seguir em frente. Temos de aprender a dizer «farewell» a quem, por opção, nos deixou. Temos de deixar caminhar quem escolheu seguir a viagem sem nós. E, acima de tudo, temos de aprender a dizer «vai em paz» a quem, sem ter escolha, deixou de fazer parte da nossa vida. E acreditar, como tenho certeza, que, de uma forma menos visível, estão connosco e connosco caminham. Por isso, como disse anteriormente, não é dizer «adeus».

Aos outros, aos que seguiram outros caminhos, aos que seguiram as suas vidas, apenas devemos desejar o melhor. Agradecer por terem feito parte das nossas vidas durante o tempo que fizeram parte. Agradecer o bem que nos possam ter trazido. E agradecer terem-nos ajudado a provar, mais uma vez, que somos seres humanos fortes; que podemos vergar, mas que não quebramos, porque somos resistentes e resilientes. E deixá-los seguir a sua vida, tentando dizer «até já» sem criar novas cicatrizes.

Reafirmo: para mim todas as despedidas são um «até já». Sei, no mais profundo de mim, que a vida se irá encarregar de reunir aqueles que partilharam sentimentos verdadeiros. O amor, em todas as suas formas, nunca morre… Por isso, aos que amei verdadeiramente, e porque tenho esta certeza que me acompanha e me dá força: «We’ll meet again!»


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ESTEFÂNIA BARROSO, Steff — a alma sonhadora
Professora. Gosta de verão e de calor. Gosta de animais — sobretudo, de gatos. Gosta de uma boa história. Por isso, gosta de cinema e de literatura. Apreciadora de café porque precisa e de vinho porque merece. Sonhadora, sempre. Acredita, como diz o poeta, que «O sonho comanda a vida». Tem um blog: «Steff’s World – A soma dos dias».