O Revés

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Fotografia © Alessio Lin

Era um dia igual a tantos outros que a chegada recente do verão trouxera consigo: luminoso, quente, com uma frescura intermitente que o tornava, particularmente, delicioso. Sem falsas modéstias, o arvoredo exibia as suas vestes verdes e radiosas. Conhecia, como poucos, os segredos da sedução. Impercetivelmente, a folhagem suspendeu os seus modos desassossegados, quando dois sorrisos, debaixo de si, se cruzaram. O céu azul clareou e a passarada silenciou. As possibilidades que quiseram adivinhar foram as mais doces, mas as suas bocas silenciaram-nas. Negavam-se aceitar algo menor do que o infinito do céu crescente. O seu sonho, que não desistira de ser o maior, não suspeitou de nada. Acreditou, crédulo, nos sorrisos, esqueceu a folhagem pendente e deixou-se cegar pelo brilho dourado dos raios de sol. O tempo susteve a respiração e os sorrisos abriram-se. Destemidos. A paisagem, cúmplice, aquietou a vida que brotava esfuziante, ofegante com a onda de calor que crescia e que se espalhava pelo ar, cedendo, o momento, aos dois rostos cuja familiaridade não os estranhou. A rota traçada para aquele dia alterou-se e um caminho novo se abriu.

A paisagem exuberante conspirou com os que a haviam escolhido para se encontrarem e deixou que um novo trilho nela se desenhasse, com formas nunca antes conhecidas. As promessas eram muitas e preenchiam os seus dias com o bastante que se revelaria, surpreendentemente, diminuto. Mas, um dia, sem aviso, o céu azul, outrora limpo, nublou. A mudança de estação tornou-se ameaçadoramente precoce. Relutantes, recusaram-se a aceitar que a estação abdicasse dos seus modos quentes e apaixonados. Era demasiado cedo. Cruel. Julgaram-se mais fortes que a mãe natureza e ignoraram os seus sinais. Persistiram em seguir o trilho, apesar da dureza do silêncio que o invadia. Partículas de poeira ascendiam à sua passagem obrigando-os a ser mais cautelosos na direção que tomavam. Ignoraram os riscos. Por não duvidarem da força que tinham em si guardada, esqueceram-se que mais fortes são as forças que regem o universo.

As pequeninas partículas de poeira que se moviam à toa teimavam em não pousar, roubando a limpidez aos amanheceres. A visão turvava e ainda era verão. A iminente mudança de estação não escondeu a indiferença aos dias que faltavam para deixar cair a folha do calendário. O chão fugia e os passos perdiam a sua determinação. No trilho aberto, começaram a delinear-se contornos fantasmagóricos de que não se conheciam os rostos, nem a identidade. As copas das árvores deixaram vergar os ramos e algumas folhas tombaram, desfalecidas. A tristeza cobriu-as. O verão tornou-se dramaticamente frio. Insanos, quiseram acreditar que o calor dos seus corações bastaria para enfrentar o pequeno capricho da natureza. Avançaram. O fio de poeira enredou-se, formando um novelo informe por culpa da força dos ventos turbulentos que se levantavam a cada passo que davam. O novelo crescera e o sol já não escondia a sua impotência para nele penetrar. Não era um novelo que inspirasse o aconchego, ou a maciez no trato. Só a aspereza crescia e o novelo, lasso, desmanchava-se, pouco a pouco, deixando um rastilho estreito e afilado que os deixaria sucumbir ao que eram incapazes de dominar.

No trilho que teimavam em manter aberto, as passadas desequilibravam-se de modo assustador. Os tropeções eram uma constante. E as feridas sangravam sem que nenhum deles fosse capaz de cuidar do que os atingia dolorosamente. A neblina, cada vez mais densa, cobria os campos roubando-lhe o verde, outrora frondoso e resplandecente. A manta que os cobria arrepiava caminhos que não eram os que haviam sonhado. As gotas que manchavam os seus rostos não eram as do orvalho que, um dia, na sua forma pueril, cobrira as vidraças das janelas que lhes ofereciam o mundo. Os sons não escondiam a angústia pela desarmonia com que se olhavam. Os troncos das árvores contorciam-se de dor à sua passagem, assumindo formas agrestes e rudes que os feriam profundamente. A luminosidade dos dias rasgava-lhes a alma, de tão envolta que estava na negridão que sobre si se abatera. Aterrador. Inevitavelmente, um dia, igual a tantos os outros, só o silêncio ficou, na ausência dos que deixaram partir o sorriso que um dia os unira.

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ANA SANTOS, a gaivota
A vida fez com que ousasse pegar numa caneta e num caderno e nele viajar pelo mundo das palavras escritas sonhadas. Primeiro a medo, depois com menos receio, deu por si a relembrar-se do prazer que já em criança sentia pela escrita. Com uma licenciatura em Físico Química, não causará estranheza que a natureza seja o seu porto de abrigo. Adora estar em contacto com a natureza e é nela que encontra algumas respostas para os seus desassossegos, sem se sentir culpada, mas sempre abraçada.