Amanheceres

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Fotografia @ Pixabay | Cartaz © Laura Almeida Azevedo

Há amanheceres silenciosos que lançam fios de luz, dourados, em todas as direções para, de imediato, se fixarem onde tocam. Nada fica esquecido. E, logo, uma teia dourada começa a ser tecida com esmero e sabedoria. Não tarda a que tudo seja por ela sustentado. O céu cresce devagarinho, sem reclamar do tempo. As nuvens organizam-se, em movimentos pausados, não escondendo o quanto gostam de sonhar. A terra fresca eleva o olhar, com inveja de ao reino dos céus não chegar. A água, que tem pena da sentença que atingiu a Terra, desce do céu para com ela partilhar o que em si corre. A terra agradece. Reconhece o dom que, pelo Universo, lhe foi entregue: transformar o que a si chega. E, na sua escuridão, escolhe, confiante, a transparência da água sem receio da dureza do caminho. Acredita que o astro rei consigo compactuará na demanda. Nenhum pormenor será descurado enquanto a luz estiver presente. A sua fé é grande. Não tem por que temer.

Há amanheceres que cantam uma canção de embalar, despertando a vontade de silenciar o que tanto se agita. As notas musicais repetem-se e uma carícia percorre o corpo, oferecendo-lhe a proteção por que anseia. Aquieta-se. O corpo em desalinho, debaixo da palidez dos lençóis, queixa-se da noite escassa de descanso. Figuras fantasmagóricas sobrevoaram toda a noite o corpo vulnerável, lançando-lhe ameaças veladas pela escuridão. Acobardadas, fugiram assim que a luz vibrante foi batuta da melodia que chegou, trespassando, lentamente, cada pedacinho daquele corpo cansado. Mágica, como todas as canções de embalar, não foi preciso esperar muito para que as notas musicais harmonizassem o que o corpo não era capaz de fazer sozinho. O Sol, diligente, modera a intensidade luminosa que deixa cair sobre o berço da humanidade. Reconhece-lhe os modos macambúzios e só deseja iluminar o corpo desfigurado. A terra chama por ele. Urge erguê-lo. Nutri-lo. Acarinhá-lo. Protegê-lo. Para que cresça forte, confiante, apaixonado, alegre.

Há amanheceres que prolongam a noite e se fecham entre quatro paredes. O céu azul é uma miragem, a luz do Sol uma provocação, as nuvens a desconfiança do sorriso sem razão, o chilrear dos pássaros o desalinho dos pensamentos que projetam uma sombra maquiavélica sobre a terra. A terra, escura, cresce, e o amanhecer tarda. O breu que a atinge desponta no corpo o desânimo, adubo eficaz para que a derrota floresça. Olhar o Sol é sempre estranhamente doloroso para o que se manteve, por demasiado tempo, na escuridão. As raízes agarram-se tenazes à terra. Porém, não crescem. Garantem, apenas, a sobrevivência do corpo que dói. Cioso da terra que conquistou recusa aventurar-se para além do torrão. Apenas acredita na escuridão. Ela é tão palpável. A terra consistente, sem receio de se soltar quando a mão se abrir para a sentir, fresca, apesar do calor que o Sol lhe entrega, vela o corpo que se dobra sobre si, desacreditado da beleza da terra. Há muito tempo que nele se fez noite. E essa é a única verdade que aceita.

Há amanheceres enevoados e frios que escondem do olhar lugares longínquos que a névoa não deixa descortinar. O sonho entristece. Desconhece que rumo dar ao leme. O corpo detém-se. Só a névoa parece saber para onde vai. Com os seus longos e esvoaçantes véus, avança, alheia, ao corpo entorpecido com a frescura húmida. Um arrepio percorre-o. Ignora-o. A névoa prende-lhe a atenção. A dança nas pontas que executa sustem-lhe a respiração. São amanheceres que desfalecem as cores que festejam a vida que brota da terra. Resguardam, temporariamente, o que em si germina, porque o recolhimento impõe-se quando as luzes baixam, refreando o ritmo do trabalho. O frio paralisa os movimentos, enquanto a mão divina, invisível, mantém-se por perto. Aquela que dá vida à terra. Cúmplice com o que nela cresce, mantém quente o torrão onde a semente matura em silêncio. Não tardará a que as nuvens se dissipem e o frio amorne para que o amanhecer descubra a luz e o corpo se desembarace do que o entorpece.

Há amanheceres que transportam toda a carga de uma tempestade. Perigosamente, a terra vê-se perante a eminência de ser arrasada. Tudo o que nela nasceu, cresceu e frutificou, corre o risco de ser destruído. Os trovões ensurdecedores expandem-se e, dentro do peito, amplificam-se, gerando uma turbulência perturbante. Os relâmpagos iluminam por breves instantes aquilo que as cores metálicas endurecem. A sua intermitência cria uma sequência de imagens que bem podiam fazer parte de um filme de terror. O corpo cede despojado de forças e as lágrimas caem, sem esforço, porque a gravidade disso se encarrega. A dor queima o peito de cada vez que o ziguezagueado do relâmpago o atinge certeiro. A queda é certa. Só a mãe-terra o intui. Carinhosa, estende-lhe um tapete com a terra mais fofa inundado de água que tudo lava. Quando o vento soprar e afastar a tempestade, o Sol raiar e o seu brilho ofuscar, a terra respirará ofegante, exalando dos seus poros fragrâncias inconfundíveis. Deliciosas. As sementes germinarão. Em graça. E para trás ficará a tormenta que as atingiu.

Há amanheceres que correm, ao encontro, de braços abertos e sorriso no rosto. Simplesmente, resplandecentes. São cúmplices do amor secreto que esquece o tempo de despertar os corpos dos amantes que dormem enlaçados. Uma suave brisa cobre-os. Nada é mais forte do que o seu amor. Sentem-se invencíveis. Tudo o que lhes chega rende-se, incapaz de resistir aos olhares amorosos que trocam entre si. A terra regenera os corpos vibrantes pelo amor que os une. O verde torna-se intensamente fresco. Límpido. O castanho docemente determinado. Os amarelos cintilam atraindo a si os insetos desinquietos. Os sons festejam com odes e, secretamente, organizam-se numa dança. Livres. Os amantes escutam a terra e dançam. Livres. A pureza do amor que sentem torna tão fácil compreendê-la. A vida. A terra abençoa-os e o poeta escreve os versos que comungam do êxtase dos apaixonados.

Há amanheceres em que o som da chuva suplanta o som plácido da manhã. O coração da terra inquieta-se e, incapaz de conter toda a emoção que o assalta, abre estreitos veios de água que a percorrem, entrecortados por pequenos soluços. A terra chora e, apesar do caminho aberto à sua passagem, ninguém faz a mais pequena ideia do que se passa. Incapazes de suster os regos de água, que a percorrem, encolhem os ombros e comentam: «Há de passar!» A tristeza inunda-a. A terra desconhece o que a espera e só quer deixar-se afogar nas águas que a percorrem. Sufocante, gorgoleja. Não há bóia que a salve daquele afogamento lento. O Sol precavido e atento ao que debaixo de si acontece desembainha a sua espada de luz e corta certeiro as linhas de água que se abatem sobre a terra. A terra, num derradeiro olhar, dirige o olhar aos céus. Emudece. E o seu castanho-terra ruboriza-se. Um arco colorido celebra a união. As cores que o pintam enaltecem a força daquele coração terráqueo que aceitou o que não pediu e repôs a fé na vida que enfrentou com valentia, quando o dilúvio a atingiu.

Há amanheceres que despontam ao anoitecer, quando a luz prateada da lua clareia a árdua jornada que findou. Cada intenção, cada gesto, cada ação foi executado com sincero respeito pela natureza do que às mãos lhe chegou. Quando o amor divino é derramado sobre a terra, deixando-a vibrante, naturalmente, ela expõe-se como é: nutritiva, criativa, incansável, sábia. Tudo o que lhe chega com respeito, humildade, dedicação, alegria e benevolência, ela devolve. Sem palavras, porque não lhes conhece o significado. A terra exibe, então, serena, o milagre da vida.

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ANA SANTOS, a gaivota
A vida fez com que ousasse pegar numa caneta e num caderno e nele viajar pelo mundo das palavras escritas sonhadas. Primeiro a medo, depois com menos receio, deu por si a relembrar-se do prazer que já em criança sentia pela escrita. Com uma licenciatura em Físico Química, não causará estranheza que a natureza seja o seu porto de abrigo. Adora estar em contacto com a natureza e é nela que encontra algumas respostas para os seus desassossegos, sem se sentir culpada, mas sempre abraçada.