Só conhece o amor quem aprende a voar sem asas

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Pobre daqueles que só aprenderam a amar as ilusões. Dos que constroem castelos onde pensam que podem guardar sentimentos, julgando-se assim donos do amor. Pobres daqueles que julgam que podem vencer o amor, sem que o tenham abraçado, antes mesmo de o ter conhecido.

O amor existe em nós muito antes de o procurarmos. O amor conquista-se. O amor é de quem deixa que seja ele a encontrar-nos. O amor é sábio. Tão sábio, que nunca chegaremos ao topo da sua sabedoria. Iremos tropeçar tantas vezes, ao tentar subir essa escada delicada e subtil que nos poderá levar até ao amor. Teremos que esfolar os joelhos vezes sem conta. Sentiremos que o coração sangra, sem que lhe vejamos uma única ferida. Mas será sempre o amor a curar cada uma dessas mazelas que nos atacam.

Pobres daqueles que não querem ver esta realidade. Irão morrer sem nunca ter conhecido o amor. Terão espalhado pelo mundo milhares de teorias de como viver uma grande história de amor, e eles mesmo nunca entenderem uma palavra que seja do que escreveram. Não entenderão o que é o amor, porque nunca o viveram. Só entende o amor quem acorda com um sorriso que lhe rouba todas as palavras que poderia dizer, mas que troca por gestos silenciosos que espalham um «amo-te» por todos os recantos do seu corpo. Só conhece o amor quem aprende a voar sem asas, para que o seu amor o possa abraçar, riscando do mapa todas as rotas possíveis para chegar até onde o seu apaixonado está. Só conhecerá o amor quem ama à distância e sente a proximidade.

Pobres dos que se dizem apaixonados sem ter conhecido o calor do amor. Dos que reclamam das demoras e, no entanto, contam as horas. Dos que não sentem a urgência de um beijo e que julgam que um «amo-te» pode ser dito sem sentimento. Quem não sente a intensidade de cada uma daquelas pequenas letras na sua pele nunca terá amado de verdade. Talvez tenha navegado na ilusão dos sonhos. Talvez tenha semeado expectativas no futuro, sem se lembrar que o amor é uma flor que nasce sozinha.

O amor não se satisfaz só com palavras. Ele ama silêncios. Aqueles silêncios que escrevem poemas sem linhas em corpos desalinhados. Silêncios que espalham roupas e arrumam desejos. Silêncios que desarrumam camas e se ajeitam em abraços apertados. Silêncios sem princípio nem fim. Silêncios sem tempo, porque o tempo é o pior inimigo do amor. O amor quer ter todo o tempo do mundo para sorrir. O amor muda a cor de qualquer sorriso. Quem nunca soltou gargalhadas de prazer nunca amou.

Pobres daqueles que dizem que o amor os deixou. O amor não abandona ninguém. Ele prende os corações que se entendem e liberta os corpos que não se encaixam. O amor é um poema perfeito para duas vidas que se entrelaçam e passam a ser só uma. Nele cabem todos os silêncios que rimam com paixão e todos os versos em que as palavras nos aumentam a emoção.

Pobre dos que nunca amaram e, mesmo assim, tentaram escrever a poesia do amor, usando rimas imperfeitas onde tentaram que paixão rimasse com solidão. Esses poetas não viveram, porque um poeta é filho do amor e ajuda a parir a poesia da vida!

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ANGELA CABOZ, a miúda gira
Nasceu em Tavira há 49 anos. Desde a adolescência que é uma apaixonada pela leitura, pela escrita, pelo cinema e pela música. Escreve sobre sentimentos e, nas palavras, reflete a maneira de ver e de sentir o mundo. Em 2014, realizou um sonho: a publicação do seu livro «À procura de um sonho». Desde então, tem participado em várias obras coletivas.