O Surfista – Parte 2

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Fotografia @ Pixabay | Cartaz © Laura Almeida Azevedo

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Vasco era um homem de estatura mediana, magro, de ombros largos e braços que gostavam de abraçar o mar. A pele do seu rosto não escondia o que ele mais gostava de fazer nos seus tempos livres. O tom acentuadamente bronzeado clareava os olhos castanhos de um brilho transparente que contrastava com a secura que os seus cabelos desalinhados exibiam. Vasco fora até àquela praia procurar uma série para surfar. As previsões tinham-lhe prometido um dia generoso para apanhar ondas. Já lá andava há umas boas horas. Por isso, quando a vaca o tomou e o esvaziou das últimas reservas de energia, decidiu sair. Assim que atingiu o areal, tombou sobre a areia, deixando-se ficar deitado de barriga para cima com a prancha ao seu lado. Lara chamou-o e levantou-se, correndo para ele. A visão da sua ninfa devolveu-lhe um sorriso ao rosto dolorido.

— Vasco! Estás bem? Eu e a Teresa temos estado aqui a ver-te. Vais voltar? – Lara falava sem parar, enquanto o Vasco sorria, sem a mais pequena hipótese de responder.

— Vasco! Lara! – chamou a Teresa. – Venham.

Vasco sentia-se inebriado. Precisava de tempo para recuperar e não estranhar o granulado que voltava a pisar, em vez do chão molhado que percorrera, até perder a noção do tempo.

— Sim, estou bem – e, sem o mais pequeno queixume, Vasco levantou-se.

No reino dos mares, a prática do surf é uma batalha permanente e arriscada. A adrenalina percorre o corpo e os impossíveis perdem-se nas profundezas do mar. O espírito de sobrevivência é o combustível que impulsiona a prancha que, debaixo dos pés do surfista, desliza, avançando, continuamente, dando à vida o pulsar que a dignifica. Vasco nunca tivera a pretensão de contestar o domínio do mar pelo deus supremo, Poseidon. Desde sempre, lhe reconhecera o poder absoluto de reger os ventos, as correntes e as marés, condicionado pelo seu, evidente, génio temperamental. As mudanças drásticas de humor roubavam ao mar a constância às ondas. Vasco bem dizia a irreverência do deus Poseidon. O surf vivia dessa inconstância. Em criança, alguém lhe lera histórias sobre o deus dos mares, Poseidon, habitante das profundezas do oceano, dono de um palácio feito de corais e pedras preciosas e que transportava na sua mão direita um tridente capaz de causar tempestades violentas e maremotos medonhos. Vasco, humilde e consciente das suas limitações, respeitava a divindade. O seu tridente era a prancha que exibia, orgulhosamente, especialmente concebida para a sua estatura, por um shaper bastante conhecido, no meio. Também ela possuía poderes ocultos que se revelavam quando Vasco para cima dela subia e avançava sobre a água. Não era sua intenção provocar o deus tempestuoso. Sim, não tinha vergonha de dizer que o temia. Ainda assim, graças à coragem que sentia quando pisava a superfície macia da prancha, nada o demovia de passar uma boa parte do tempo no reino de Poseidon. Idolatrava tudo o que dele recebia.

Ao contrário dos humanos, o mar sabia ser formoso quando fazia ondas. Os surfistas procuravam-no, diariamente, e Vasco era um deles. De prancha debaixo do braço entrava nas águas determinado a apanhar a melhor onda que corresse para si. Deitado sobre a prancha, remava, vigorosamente, até atingir o ponto estratégico que lhe permitia alcançá-la. O conhecimento que tinha das marés e dos ventos e a experiência garantiam-lhe boas hipóteses de sucesso. Quando a onda emergia, o seu coração apressava-se. Ansiava por tocar-lhe e ficar em sintonia com ela. O suspense que a onda criava só podia ser propositado. Envaidecia-se por o ter à sua espera. Atrasando o momento em que se erguia pujante, a onda sabia como valorizar os seus pontos fortes, com a ajuda do astro rei. Os raios de Sol vestiam-na com um vestido cravado de lantejoulas que a deixavam resplandecente. Os mesmos raios de Sol que vestiam a onda despiam o coração de Vasco de todas as camadas que o protegiam. Era vê-lo, então, destemido, desbravar alturas, curvas, planos, num ziguezaguear frenético. Naquele movimento imparável, cheio de força, Vasco libertava-se de todas as energias negativas. Vinha-lhe, então, à ideia o que lhe dissera o seu shaper:

— Sabes, no início, as pranchas eram construídas pelos surfistas. Eles acreditavam que, ao fabricar as suas próprias pranchas, todas as energias positivas lhes eram transmitidas e, quando a utilizavam, as energias negativas libertavam-se.

Ao dropar a onda, Vasco ajustava-se, em cada instante, à sua forma curvilínea. Não a desejava com outra forma que não fosse aquela que percorria, equilibrado, sobre a sua prancha. A onda nascera, crescera e sem pedir licença a ninguém mostrava-se como era, para depois morrer. Uma onda do oceano. Um oceano grandioso, divinal, que depositara na onda um pouco de si. Vasco bem dizia toda a energia que se desprendia dos movimentos que os unia. Só precisava de fazê-lo com todo o seu ser. A sua sobrevivência dependia da agilidade do corpo, da lucidez dos seus pensamentos, do cálculo rápido para com inteligência fazer a abordagem mais eficaz, com todo o respeito que nutria pela natureza da onda. O surfista não escondia que era seu desejo acompanhá-la. E, ao seu lado, viver fantásticas aventuras, até ao fim dos seus dias. Quando morresse, voltaria para surfar, mais uma vez, no lip, quem sabe, sob a forma de uma gaivota, ou tão simplesmente na forma de espuma branca, e borbulhar ao seu ouvido segredos que só ela guardaria. Falar-lhe-ia dos tempos em que haviam sido companheiros inseparáveis. Nunca deixariam de o ser. Apenas teriam existências diferentes.

Vasco deu a mão a Lara que não deixara de o olhar com meiguice. Regressaram a casa, com Teresa, no seu encalço, a tagarelar; ela queria que Vasco a ensinasse a surfar. Haviam de voltar no dia seguinte. As ondas prometiam sempre voltar.


Drop Movimento de descida da face da onda que acontece logo após a remada e ao movimento do surfista de se colocar de pé sobre a prancha.
Lip  A crista da onda.
Série  Uma sequência de ondas.
Shaper  O profissional que fabrica as pranchas de surf.
Vaca  Quando o surfista cai da prancha.

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ANA SANTOS, a gaivota
A vida fez com que ousasse pegar numa caneta e num caderno e nele viajar pelo mundo das palavras escritas sonhadas. Primeiro a medo, depois com menos receio, deu por si a relembrar-se do prazer que já em criança sentia pela escrita. Com uma licenciatura em Físico Química, não causará estranheza que a natureza seja o seu porto de abrigo. Adora estar em contacto com a natureza e é nela que encontra algumas respostas para os seus desassossegos, sem se sentir culpada, mas sempre abraçada.