O tempo não o traz de volta

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Fotografia @ Pixabay | Cartaz © Laura Almeida Azevedo

Hoje, não sei como cheguei ao meu destino. Duas horas de viagem em que não me lembro do caminho. Sempre com sono, cansada, anestesiada de dor e com vários pensamentos na cabeça. De cada vez que faço esta viagem questiono-me se tudo isto vale a pena.

Ano após ano, funeral após funeral, questiono-me se vale cada minuto longe da família. Estou presente no Natal, nas férias, um fim de semana a cada mês… Visitas que o tempo, as distâncias e dinheiro permitem. E que é sempre pouco para estar tempo de qualidade com todos.

E o resto? Os aniversários, os momentos do dia a dia, as pequenas rotinas que se perdem? Perde-se o crescimento dos mais novos, o envelhecimento dos mais velhos, as conquistas de cada um. Até as derrotas em que deveria estar para apoiar.

Questiono-me quando é a última vez que estou com cada pessoa. Porque cada vez mais a vida me demonstra o quanto é efémera, inesperada e fugaz… E é tão injusta cada partida, cada viagem. Para longe daqueles onde me sinto protegida.

Hoje, em especial, esta viagem foi difícil. Vim do funeral do meu avô. Perdi muitos momentos com ele… assim como de todos os outros familiares que têm partido ano após ano. Afinal, já são 15 anos a estudar e a trabalhar longe de casa.

E para quê? De que vale todo este esforço, toda a ausência? Sempre a vestir um segundo papel em que tenho que ser forte, guerreira, corajosa. Para uma segunda vida onde não tenho o meu porto-seguro, a minha família, aqueles que me desejam bem e que gostam verdadeiramente de mim. Claro que pelo percurso faço amigos, conheço pessoas boas e quem valorize o meu trabalho. Mas hoje pergunto-me: vale o sofrimento de partir de casa? Vale o sofrimento a cada despedida? Vale o sofrimento das despedidas definitivas, mas que não sabemos que são?

Então, nesta viagem, em que hoje não me lembro do caminho, há que vestir outro papel. Depois do funeral do meu avô, há que voltar ao trabalho e fingir que tudo está bem. Mas não está! Nem vai estar. Porque o tempo, em que não estive com ele, não tem volta. O tempo não o traz de volta.

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CARINA MAURÍCIO, a fotógrafa
É budista e conservadora-restauradora. É de riso e choro fáceis. Tem tanto de sensível, quanto de corajosa e lutadora. Adora fotografar, jogar ténis e viajar. Viciada em comida, é fã de comida italiana. Gosta de dormir, de café, de chocolate. Dançar? Pode ser a noite toda. Mas também gosta de ficar na ronha, em casa, entre filmes e pipocas. Adora o som da chuva a cair no inverno e o som do mar em dias de verão. Campos floridos enchem-lhe o olhar, assim como as cores das folhas do outono. Apaixona-se facilmente e é uma apaixonada pela vida. Uma geminiana pura.