Amar tem destas coisas

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Fotografia @ Pixabay | Cartaz © Laura Almeida Azevedo

Amar tem destas coisas. Habituamo-nos a uma presença. O nosso ser une-se a outro sem que nos demos conta. Não é necessária qualquer intervenção cirúrgica — muito menos a montagem de alguma engrenagem mecânica. O nosso coração é que trata disso, nas nossas costas.

Conectado com o nosso consciente, e como se de uma conspiração se tratasse, o nosso coração comanda. Comanda-nos. E, quando damos por nós, já não somos um só. Mantemos a nossa entidade, porque uma coisa não invalida a outra — ou, pelo menos, não devia —, mas deixamos de sentir a solo. Já não voamos sozinhos, mas também não caímos. O nosso ser, habituado a ser egoísta, aprende que qualquer decisão sua, afinal, terá consequência sobre outro. Perdemos, assim, parte do nosso egocentrismo. Custa, mas lembramo-nos de que não estamos sós e que gostamos que o outro também pense assim.

É dessa construção que o nosso inconsciente, conduzido pelo nosso coração, trata. Trata da capacidade de encaixe e da aptidão para o ajustamento. Prepara-nos para um ser a dois, consciente. Abre o caminho para o aceitar, o ceder, o compreender, o respeitar e o ouvir. Caminho este que terá que ter dois sentidos obrigatórios. Que nunca poderá ser de sentido único. Nunca. Porque aí alguém se perderá e ver-se-á num beco sem saída.

É um caminho duro, mas é um bom caminho. Exige muito de nós, mas também compensa. E, se não compensa, é porque não vale a pena.

Conexão química ou física, ou ambas, não sei. Mas sei que é na ausência que mais se sente que, nalgum momento, deixámos de ser únicos neste mundo. Que já não pensamos, nem decidimos a solo. Há sempre, pelo menos, uma vida que leva com o impacto dos nossos passos, das nossas hesitações, dos nossos trambolhões, das palavras que guardamos e das mágoas que escondemos.

Continuamos a ser únicos, mas deixamos de o ser sozinhos. É estranho, mas faz sentido, não faz?

O amor tem destas coisas.

É tão bom saber que não sentimos a sós.

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ANA PEREIRA, a inquieta
Nasceu numa noite estival, mas tem alma outonal. Convive com os números, mas encontra refúgio nas palavras. Aparenta serenidade, mas governa-a uma mente deveras inquieta. Se lhe perguntarem, é assim que se define a si própria. Aliás, estas foram palavras dela.