Ai, o mar…

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Fotografia @ Pixabay | Cartaz © Laura Almeida Azevedo

Ai, o mar… sedutor de almas perdidas. Hipnotiza-as com o vaivém das suas ondas.

Doce e quieto, agreste e furioso. Tem os seus dias, tal como nós. Mas cativa sempre. Num dia, convida e envolve-nos com a sua frescura. Noutro dia, mantém-nos à distância e mostra-nos que é senhor do seu espaço.

Ao entardecer de um dia quente, um passeio à beira-mar, sobre a areia morna, onde o mar, de vez em quando, nos vem beijar os pés. A brisa que nos acaricia a pele traz o seu perfume salgado. O cheiro da maresia entranha-se pelos poros, qual bálsamo para um espírito cansado.

O som do mar é um encantador de corações inquietos. De olhos fechados, deixamo-nos levar pelo seu ritmo e, aos poucos, como se fosse feiticeiro, consegue-nos apaziguar. Mesmo quando está no auge da sua raiva e as ondas quebram pesadas sobre a água.

Já ouviram o mar numa praia de calhau? Os passeios podem ser mais desconfortáveis do que numa praia de areia, mas o som, esse, arrepia. O mar, quando recua, embrulha-se nas pedras e as mais pequenas vão atrás da onda, rolando praia abaixo, ao encontro da sua mãe água. E é assim que, com a sua força e paciência, essas águas moldam as pedras, ao longo do tempo, dando-lhes a sua forma lisa e arredondada. Afinal, o mar, além de rei, é artista.

O mar é um senhor que impõe respeito, mas também mete medo. São demasiados os segredos que as suas águas encerram e são ainda desconhecidas muitas das suas vontades. É dono de si e imprevisível.

Quando passo por ele, é um olá, como tem passado, e fujo logo para o outro lado. É claro que estou a exagerar. Nada contra os passeios à sua beira. Mas a ideia de me ver rodeada por uma imensidão de água é aflitiva, demasiado aflitiva. Portanto, é ele lá e eu cá em terra seca.

Compreendo a paixão de muitos por ele, mas não partilho da mesma. Admiro-o à distância, sem me atrever a entrar pelo seu reino dentro. Passo por ele, faço-lhe uma vénia e sigo o meu caminho.

Ai, o mar… fascínio de tantos, fobia de outros quantos.

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ANA PEREIRA, a inquieta
Nasceu numa noite estival, mas tem alma outonal. Convive com os números, mas encontra refúgio nas palavras. Aparenta serenidade, mas governa-a uma mente deveras inquieta. Se lhe perguntarem, é assim que se define a si própria. Aliás, estas foram palavras dela.