A engenharia do amor

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Fotografia © Toa Heftiba | Cartaz © Laura Almeida Azevedo

Porque amamos alguém? Que variáveis é que pesam nesta equação que resulta no amor?

Se o amor fosse um aparelho, responder a esta pergunta seria desafiante, mas possível. Usando o método da engenharia reversa, desmontávamos tão intricado e delicado objeto, analisávamos todos os seus componentes, ligações e complicações. Talvez, assim, percebêssemos como funcionava a coisa. E, sabendo como funcionava, poderíamos até descobrir forma de anular o processo, invertê-lo ou ajustá-lo, o que até daria jeito a muitos de nós. Mas não dá para recorrer a este método. Poderíamos, então, dissecar o cérebro ou o coração. Mas, para além ser pouco recomendável, penso que não nos levaria a muito longe.

Dissequemos não os órgãos, mas os factos. É verdade que cada um saberá de si e ler mentes ainda não é capacidade que possuo.

Começa como? Não sabemos se é uma pancada na cabeça ou uma seta no traseiro. Ou se foi um sorriso de menino desenhado a sonhos, ou um olhar profundo de homem marcado pelas vivências.

Não acredito em amor à primeira vista, porque o amor resulta do amadurecimento de algo e desconheço a existência de algum processo de amadurecimento instantâneo. Uma ligação imediata, química, uma «queda», sim, isso é possível.

A covinha de um queixo, uns lábios convidativos, umas mãos inquietas, um rabiosque palpável ou o tronco aconchegante. Fazes o decalque em memória fotográfica de todos pormenores (visíveis) e para os restantes utilizas a imaginação à falta de melhor. A sua simples presença desencadeia um processo qualquer, em que o coração bate que nem doido, roubando energia ao resto do corpo e deixando as pernas sem força.

Até pode não ser o pão dos anúncios daquela marca de detergente para a roupa, mas aos nossos olhos é único.

No início, achamos piada aos tiques e manias e justificamos e condescendemos tudo e mais algumas coisa. Elevamo-lo a um pedestal a que mais ninguém chega. Vemos tudo com lentes de aumento, se bem que enevoadas. Vemos pormenores que mais ninguém repara, inclusive os mais descabidos. Queres saber todo e tudo sobre ele e mais, desde a árvore genealógica ao cadastro criminal, desde aos gostos até às suas ambições. Se ele fosse um livro, folheavamo-lo vezes sem conta, incansavelmente, na procura de algum pormenor que nos tivesse falhado. É uma sede e uma inquietação que não se cala.

E como é que te apercebes que deixou de se uma paixonite aguda para um (bom) sentimento crónico?

É quando as lentes se ajustam ao tamanho da realidade. É quando ele cai do pedestal e embates de frente nas suas falhas. E, afinal, há coisas de que não gostas tanto, outras que te enervam. Ele tem toda uma bagagem que trará consigo. Tem medos e fraquezas. Não é o príncipe invencível que te vai salvar sempre que estiveres em apuros. Também ele terá dias em que esperará que o salves. E é aqui que se ascende a outro nível ou cai o encanto por terra.

É aqui que coisas se pesam de outra forma. Analisam-se de outra perspetiva. E é na balança dos dias que se avaliam todas as varáveis. É aqui que olhamos também para nós e avaliamos as nossas imperfeições. Que nos perguntamo se estas se entenderão com as dele, ou se o choque vai ser constante. Questionamos se temos ou não capacidade de adaptação e aceitação daquele ser.

Mas, no fim de contas, olhas para ele e percebes que, apesar de tudo isso, ele continua a ser único para ti. Que o amas. Que o queres ao teu lado. Já assimilaste que não tens um príncipe, mas um homem, que precisará de ti tanto quando tu dele. E é com ele que queres partilhar tudo. E, sempre que qualquer coisa acontece, é ele que gostavas de ter por perto, para duplicar o bom e partilhar o mau.

Quem sou eu para explicar o mais inexplicável dos sentimentos!

Acordem lá o Freud. Pode ser que ele saiba.

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ANA PEREIRA, a inquieta
Nasceu numa noite estival, mas tem alma outonal. Convive com os números, mas encontra refúgio nas palavras. Aparenta serenidade, mas governa-a uma mente deveras inquieta. Se lhe perguntarem, é assim que se define a si própria. Aliás, estas foram palavras dela.