Bem me quer

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Ilustração/Cartaz © Laura Almeida Azevedo

A rapariga fez rodopiar, entre os seus dedos, a flor amarela de pétalas finas e abundantes. Divertiu-se quando as pétalas se arquearam, tornando-as ainda mais afiladas. Aquele pequenino Sol sorria para ela, despretenciosamente, oferecendo-lhe um sorriso radiante ao rosto.

— Bem me quer, mal me quer, bem me quer, mal me quer, bem me quer …

A rapariga fixou os olhos, com um olhar sonhador. Não. Não era imaginação sua. Ele gostava dela. E ela sonhou com ele, acreditando que também ele sonharia com ela. E isso foi o bastante para que o Sol passasse a fazer parte dos seus dias.

A flor amarela, que fizera as delícias da jovem sonhadora, fora generosa, quando feita oráculo, lhe garantira que era correspondida no seu amor sonhado. A rapariga feita mulher nunca mais esqueceu a flor. O Sol fazia parte dos seus dias e isso era mais do que muito. Acreditava que ficariam, para sempre, juntos. O astro rei iluminou a pequenina flor e a seiva que nela circulou, por sua intervenção, criou frutos. Frutos que se cobriram de uma leve penugem, em forma de bola. Uma bola de pequenos chapéus que protegiam, do Sol direto, as sementes que haviam de garantir a sua perpetuação. O pompom do dente de leão nunca tivera a intenção de reter em si toda a sua riqueza. As sementes eram obra de um ser divino que nelas depositara todo o seu amor. O desapego do seu amor libertar-lhas-ia, inevitavelmente. Um mundo agitava-se para as receber, com todo o esplendor de que era capaz, quando o que chega é por amor.

A mulher, que se deixara deslumbrar pelo seu Sol de todos os dias, não renunciou a flor que era e deixou crescer, em si, o desejo, feito fruto. Era inverno, mas o Sol presenteou-a com uns raios de luz, especialmente dourados, porque aquele dia, por ser tão especial, ficaria para sempre gravado na sua memória. Quando o fruto despontou, o amor no seu coração transbordou, deixando-a em alvoroço alucinante. A mulher sentiu-se mais viva do que nunca. E deu graças pelo seu pequeno rebento. Fora um fruto gerado com o único amor capaz de feitos singulares. A maturação do fruto levaria toda uma vida. E, embora ela tivesse que o largar, jamais o desampará-lo-ia. Fosse qual fosse o lugar onde estivesse.

No princípio, sentiu-se incapaz de elaborar um plano. Suspeitou que estivesse a ser inconsequente. O seu cérebro, cúmplice, recusava-se a elaborar qualquer estratégia que a orientasse, por entre aquela cascata de emoções. Lera tantos livros. Mas nenhum lhe dissera como lidar com a especial e terna grandiosidade dos sentimentos que a ameaçavam afogar. Como iria retomar os seus dias com toda aquela presença, em si, tão intensa. O que a atingia era tão belo. O seu coração bombeava, como nunca, sedento de vida para amar. E amava. Como amava. O toque da sua pele. Não se recordava de alguma vez ter tocado algo tão macio, sem correr o risco de resvalar. O cheiro, da sua pequena cria, deixava-a surpresa com o efeito que causava no seu coração; convidava-a ao abraço, ao aconchego, sem tempo. A luz dos seus olhos ofuscavam-lhe o olhar. Só os sentidos manifestavam-se em pleno. Tudo, à sua volta, desaparecera, como por encanto, para a deixar a si e, ao seu rebento, num campo vestido de pequenas florzinhas amarelas. Sentia-se, tão-somente, maravilhada.

O amor que por ele sentia era tão grande, que não havia no mundo medida para ele. Deixou-se ficar, naquele campo, a perder de vista. Ali, sentia a grandiosidade do espaço, tal como o seu amor. Grande. Infinito. Ali, a paz cabia no amor que os unia, sem se sentir num colete-de-forças. A liberdade de se amarem não tinha limites. Os olhos perdiam-se na vastidão do que, à sua frente, crescia. Também o seu amor não deixaria de crescer, até os seus corações o perderem de vista, ou seja, nunca. Naquele campo, as cores eram frescas, e o amor rejuvenescia, a cada batida do coração. Qualquer recanto era privilegiado, na paisagem que oferecia; qual deles o mais bonito. É verdade que nem sempre os dias eram um campo imenso a perder de vista. Nem sempre os dias floresciam, como as flores naquele campo. Nem sempre os aromas se soltavam daquela forma indolente para os adular com carinho. Nem sempre o vento soprava favorável a suprimir o peso do dia-a-dia. Mas não era por isso que o amor não deixaria de ser maior. Grande, como o olhar sobre aquele campo, a perder de vista.

O seu amor pequenino corria sem saber para onde. O campo não tinha limites. A mãe chamou-o. Em vão. Era o momento em que o seu pequenino se decidia dar-lhe uma lição. Avançar de braços abertos, mesmo sem distinguir claramente a forma do caminho ou o seu fim. Avançar. Com alegria. Com a pureza no coração que só as crianças têm. O seu pequenino, amor do seu coração, como gostava de lhe chamar, corria, abraçando tudo o que por ele passava. O amor estendia-se por entre as flores e as ervas rasteiras, descobrindo pequenos insetos irresistíveis de cores improváveis, trepando às árvores, chapinhando nas pequenas poças de água. O espaço era imenso e o amor circulava em paz.

A mulher segurou o seu filho, pelas mãos. E, com os pés firmes, no chão, ambos rodopiaram, tomando para centro o amor que os unia. Ela sentia-se capaz de tudo. E o menino acreditava que ela era imbatível. Juntos sentiam-se poderosos. O planeta, iluminado pelo Sol, girou com eles, em perfeito equilíbrio.

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ANA SANTOS, a gaivota
A vida fez com que ousasse pegar numa caneta e num caderno e nele viajar pelo mundo das palavras escritas sonhadas. Primeiro a medo, depois com menos receio, deu por si a relembrar-se do prazer que já em criança sentia pela escrita. Com uma licenciatura em Físico Química, não causará estranheza que a natureza seja o seu porto de abrigo. Adora estar em contacto com a natureza e é nela que encontra algumas respostas para os seus desassossegos, sem se sentir culpada, mas sempre abraçada.