Um sonho de amor

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Fotografia © Coley Christine | Cartaz © Laura Almeida Azevedo

A mulher soprou a bola fofa e felpuda do dente de leão. E, em silêncio, acarinhou o amor com que sonhava. Depois daquele breve impulso, as pequeninas penugens lançaram-se ao ar, movendo-se, como que encantadas pelo silvo do vento. Seguiram-no. Ouvira dizer que, após soprar um pompom de dente-de-leão, se algumas das penugens voltarem para trás, o amor é correspondido. O vento ouviu o seu coração e respondeu-lhe. Duas pequeninas penugens pousaram no seu ombro. A sua leveza desviou-lhe o curso dos pensamentos. Olhou, por cima do ombro. Não porque se sentisse diferente. Não era seu propósito intimidá-las. Apenas não resistia à curiosidade de as olhar de perto. Admirou os seus modos de avezinhas que não temem perder o chão. Tão leves, porém, tão determinadas. De uma simplicidade esvoaçante. Tinham formas aerodinâmicas, sinal que a evolução fora longa e esmerada. Talvez tivesse sido nelas que o Homem se inspirara quando idealizou os guardas chuvas. Ou, nas sociedades mais recentes, quando construiu as sofisticadas antenas de captação de sinais que nunca ninguém vira. Coisas estranhas. Complexas. O Homem, um dia, descobriria que, antes dele, já a natureza tinha pensado, idealizado e realizado tudo o que ele patenteara. Ele só tinha que aprender a observar, ouvir e sentir. E estudar a lição, tantas vezes quantas as necessárias. Mas eram poucos os que tinham tempo para olhar e ouvir atemorizava os que viviam em frenesim constante. Sentir exigia verdade. E a verdade é, tantas vezes, dolorosa. E, porque está apenas reservada para os bravos, também nem todos ousavam sentir. A mulher não se lembrou do guarda-chuva, porque o Sol brilhava radioso sobre a sua cabeça, e as antenas de comunicação não pertenciam àquele lugar, onde o silêncio era o bastante para dizer tudo o que era puro e verdadeiro. A natureza falava com a mulher e o silêncio que se ouvia tornava-a claramente inteligível.

A mulher sorriu, sonhadora. O seu coração batia descompassadamente. Não deixava de pensar no seu amor. Correspondido. O influxo que lançara sobre aquela esfera plumosa deixara-a a pairar. Vaporosa, na sua forma tufada, a esfera desmentia a pretensão vã de se julgar invencível, ao não descurar todo o cuidado, que colocava na execução da tarefa difícil que a esperava. Proteger, com os seus singulares chapeuzinhos, decorados de penugens, as pequeninas sementes, na sua longa viagem, até que, no horizonte, vislumbrassem um terreno fértil, onde deixar-se-iam cair. Em lugares que não conheciam, elas depositariam a promessa de um amor maior. A mulher já recebera as suas. Cabia-lhe a si fazê-las vingar. Só precisava de encontrar um terreno que fosse leal à sua essência. Quando as sementes nele pousassem, a natureza só teria que seguir o seu livre curso. E tudo aconteceria com a serenidade e a confiança, próprias do que provém do coração. O amor que se escondia no seu peito, por ser tão verdadeiro, jamais poderia ser condenado a prisão perpétua. Ela acreditava na justiça divina. O seu amor era lindo demais para que não despontasse viçoso.

Em breve, encontrar-se-ia com o amor. As sementes, que a si retornaram, aconchegar-se-iam num terreno onde a luz chegasse todos os dias. Para que, com amor, germinassem, florescessem e frutificassem. Um amor assim, tão especial, requer um solo adequado para que a vida renasça a cada novo dia. Um amor que agarre todas as oportunidades que um solo bem nutrido é capaz de oferecer. Para viver com verdade. As sementes, tesouros de vida oculta, não vingariam num solo de terras movediças. Desses solos desprendem-se cheiros nauseabundos que repelem o que é sadio. Só um solo maduro é capaz de aceitar e transformar os desafios de uma vida, prestes a revelar-se, dignificando-a, orgulhosamente. Com amor. Um amor que reconheça o valor do que lhe chega, tanto em dias de Sol, como naqueles em que a chuva turva o olhar. As sementes têm dentro de si preciosidades que só se revelam aos que não receiam acreditar na leveza do amor. Só um terreno sólido poderá deixar isso acontecer, para que raízes profundas cresçam e os seres amados se elevem. A mulher tinha consigo as sementes e só as largaria num solo enriquecido de elementos vivos capazes de alimentar a chama crepitante do amor. Um solo oxigenado onde o amor cresça livre e apaixonado. Um solo com o granulado suficiente para enfrentar com resistência as intempéries que sobre ele se abatam, porque a natureza é imprevisível. Um solo agridoce que seja capaz de transformar a acidez das maleitas em coragem; a coragem necessária para a vida se descobrir.

A mulher sonhou com o amor suave e carinhoso, como as penugens. E ele aproximou-se devagarinho. Sonhou com o amor corajoso e destemido, porque a vida é uma viagem. E ele chegou expectante, sem medos. Sonhou com o amor esperançoso que, naturalmente, confia. E ele estendeu-lhe a mão. Sonhou com o amor que não precisa de ser explicado, de tão sentido que é. O abraço que deram não mentiu. Sonhou com o amor apaixonado. E eles foram um só. Sonhou com o amor protetor quando foram capazes de se ouvirem no silêncio. E o tempo parou. Sonhou com o amor que não receava a intensidade do que é simples. E a bondade foi o mote. Sonhou com o amor que é espontâneo. E os olhos brilharam. A mulher sorriu e acolheu, com amor, as sementes. As sementes agradeceram o gesto e devolveram-lhe a esperança de um sonho de amor.

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ANA SANTOS, a gaivota
A vida fez com que ousasse pegar numa caneta e num caderno e nele viajar pelo mundo das palavras escritas sonhadas. Primeiro a medo, depois com menos receio, deu por si a relembrar-se do prazer que já em criança sentia pela escrita. Com uma licenciatura em Físico Química, não causará estranheza que a natureza seja o seu porto de abrigo. Adora estar em contacto com a natureza e é nela que encontra algumas respostas para os seus desassossegos, sem se sentir culpada, mas sempre abraçada.