
Ela era a senhora daquela casa.
Cresceu desprovida de luxos. Muito pouco teve. Faltava-lhe mais do que lhe sobrava. Tornou-se uma grande senhora. Humilde, afável. Lutadora. De sorriso sempre na cara para os outros, indiferente ao que lhe vai na alma.
Tornou-se mãe. Criou quatro filhos numa casa remediada. Deu-lhes um teto, o que vestir, comida na mesa. Cuidou pela saúde deles, muitas vezes, em detrimento da sua. Deu-lhes mais do que podia, até aquilo que a ela faltava. Um dia, as crias tornaram-se adultas. Ganharam asas e voaram do ninho. E ela ali ficou.
Anseia pelo dia em que os netos lhe encham a casa de gargalhadas e mesmo de birras. Que lhe encham a casa de vida — uma casa, onde hoje, o silêncio faz eco.
Tem nas suas maleitas a sua cruz. Não tanto fruto da sua idade, mas de males acumulados ao longo da vida. Quem lhe dera que o seu corpo refletisse a sua juventude interior e o seu sorriso. Quem lhe dera que as suas dores não tivessem chegado tão cedo.
Chega agora aos seus sessenta anos.
Senhora. Desprovida de vaidades. Plena de bondade. Dá tanto a troco de nada. Nem disso está à espera. A vida deu-lhe aquele coração com vontade própria, que pensa por si e não pela cabeça.
Deus fez dela uma grande mulher. Tem na sua fé a sua força. Aí encontra alento para os dias que passam, tantas vezes a custo, com sofrimento. Disfarça, pensa que não veem a sua dor. Mas ela lá está, nos seus olhos.
A vida que idealizou para cada um dos filhos acabou por não passar disso, de um ideal. Porém, podia ter sido bem pior. Ainda estamos todos por aqui. Encaminhados na vida. Um caminho mais difícil do que qualquer mãe desejaria, mas nenhuma mãe, por mais que o deseje, pode proteger para sempre os seus filhos.
Dizem que uma mãe nunca deixa de se preocupar. Sabemos disso. Os problemas mudam ao longo do anos, mas a preocupação mantém-se. No entanto, reconheçamos que é reconfortante saber que temos sempre alguém a velar por nós nas suas orações.
Queria fazer mais por ela, mas não sei bem o quê. Aliviar-lhe o peso dos dias. Trazer-lhe novas alegrias. Ninguém merece mais do que ela, por tudo o que fez por nós.
Passaram-se seis décadas. E espera-se que viva mais algumas.
Esperamos todos.
Que a fé e a esperança se mantenham acesas naquele coração!
Parabéns, mãe!
E obrigada.




