O dente de leão

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Fotografia © Pixabay | Cartaz © Laura Almeida Azevedo

— O teu pai é careca? – Perguntou a pequenita com olhar travesso.

Antes que alguém pudesse satisfazer-lhe a curiosidade, a pequenita soprou, vigorosamente, sobre a bola branca felpuda que se equilibrava do alto do pedúnculo do dente-de-leão, seguro pela sua mãozita, desejosa de se abrir ao espaço. Pequeninos paraquedas abriram-se, levando, suspensas, as sementes, numa viagem da qual não conheciam a rota. O ímpeto, característico da sua juvenilidade, requeria procedimentos que não pusessem em risco as suas vidas, ainda mal por despontar.

— Oh! – Ouviu-se, em uníssono, as duas meninas que de olhos despertos de curiosidade seguiam, divertidas, os pequenos paraquedas, no seu balanço suave, elevando-se, corajosamente, no ar. As sementes, de olhos semicerrados, mal se davam conta da magnificência da cena de que faziam parte. Eram a personagem principal de uma história, que ainda não passara do epílogo. O pompom branco do dente-de-leão ficou desfeito, sem graça, de um sopro apenas. Só as meninas encontraram o significado para o que os seus olhos traquinas acusavam, tão simplesmente, a razão para, divertidas, pularem de alegria.

— O teu pai é careca. O teu pai é careca. – Replicou, convicta, a menina, depois de todos os pequenos paraquedas se terem desprendido. E foi com um sorriso silencioso que a sua companheira recebeu a sentença de que era improvável o seu pai recorrer.

O pé do dente-de-leão mostrou-se constrangido com a forma como foi desprovido da sua bola branca felpuda. Sentiu-se exposto de um modo tão inesperado que murchou, em silêncio, com tão agreste privação. A menina deixou-o cair e nunca mais se lembrou dele. Só tinha olhos para os pequenos paraquedas que, suavemente, se afastavam dela. Desejou deles não se separar. Quis voar com eles. Correu para eles. A nuvem de paraquedazinhos depressa se dissipou, assim que se afastaram para abrir caminho. Cada paraquedas conduzia a sua semente, imbuído do instinto que, inexplicavelmente, age na certeza de que é o melhor a fazer. Assim, enquanto alguns procuraram as alturas, outros, mais providentes, elevaram-se gradualmente, outros, ainda, não refeitos do bafejo, moveram-se em espiral, e outros deixaram-se ir ao sabor do vento. Todos se mantinham abertos. Era só uma questão de tempo até que, nalgum lugar, pousassem para depositar as suas sementes. Enquanto não se decidissem quanto à escolha do lugar, só lhes restava fluir e decorar o seu voo com a execução de algumas acrobacias, sem se deixarem distrair dos seus propósitos. Voar tinha dessas coisas. O acrescento de atrevimento descobria o uso de habilidades inimagináveis e, consequentemente, o crescendo risco na sua execução. Era demasiado cedo para que estivessem cientes de tudo o que havia para fazer. A viagem ainda só estava no início. Não era sensato precipitar os acontecimentos. Voar não é tão fácil como possa parecer. As meninas, tal como todos aqueles que, como elas, não possuem as estruturas necessárias para tão grande proeza, deixaram-se deslumbrar com o acesso, tão próximo, à grandiosidade das alturas. Os seus corações diziam-lhes que era lá que estavam guardadas as oportunidades para todos os que ousam sonhar.

As jovens sementes não reconheciam, em si, as suas aptidões. Entorpecidas, era-lhes impossível terem plena consciência de todas as riquezas que dentro de si guardavam. O seu tão recente desprendimento do fruto mãe dificultava a tarefa aos paraquedazinhos que sabiam o quanto arriscado era tomarem uma atitude impulsiva, num voo que era o primeiro de muitos. Os pequenos paraquedas sentiam-se ansiosos com a responsabilidade, mas orgulhosos por terem a oportunidade de mostrar às sementes o mundo lá do alto. Era necessário usar de cautela. O seu instinto voltava a segredar-lhes que as sementes precisavam de conhecer o mundo. E o mundo era tão grande. No início, não havia outro caminho que não fosse o da exploração. Explorar para conhecer. Conhecer para escolher. Escolher para integrar uma aventura. Uma verdadeira expedição até que encontrassem um lugar que as recebesse, calorosamente, para, em segurança, darem livre curso à germinação. Os pequenos paraquedas flutuavam, livres e desprendidos de qualquer amarra que os enfraquecesse. O impulso inicial que os desprendera fora só o primeiro passo para a nobre tarefa que os esperava: encontrar o solo adequado para as suas sementes descobrirem e revelarem toda a beleza, no seu íntimo, guardada. Depois desse primeiro passo, muitas outras expedições esperavam as pequenas sementes. Os paraquedas seriam, então, meros observadores. Não conheciam restrições válidas que pudessem impedir as sementes de avançar. Os paraquedas queriam dizer-lhes que só dependia delas chegar mais além. Não deviam duvidar, em momento algum. Queriam dizer-lhes tantas coisas, mas, mais uma vez, uma voz interior segredou-lhes que era demasiado cedo. Era, apenas, a primeira expedição de muitas outras que se lhe sucederiam.

A viagem prosseguiu, sem pressas. Os paraquedazinhos decidiram contar a história das suas origens, para distrair as pequenas sementes, porque as viagens também cansam. – Era uma vez uma esfera de aspeto fofo, leve e suave e de modos brandos. Rasteira ao chão, era ignorada por muitos, que a tinham como uma espécie daninha destituída de quaisquer talentos para oferecer aos que dela se aproximavam, para além da invasão dos campos que tomava para sua residência. Julgavam-na frágil. Pois, sim. Possuía a fragilidade necessária para alto sonhar, ao contrário de outros que com os seus modos ferozes desfazem a grandeza de um sonho que se quer livre para que possa germinar, florir e frutificar. O desprezo, que emprestam à fragilidade dos que ousam amparar os sonhos, imerge na cegueira de tomar para si os frutos que não plantaram. Por isso, arrancavam à terra a suavidade do pompom para a tornar produtiva. Mas esqueciam-se que a terra só revela a sua arte de transformar quando nela recebe as pequenas preciosidades que tudo possuem, em si, para evoluir: as sementes. O pompom, continha, dentro de si, as sementes que reconhecem e valorizam o amor da terra, materializado nos nutrientes que lhes cede para, em troca, as ver crescer, florir e frutificar. Amor puro. Que os mais céticos são incapazes de reconhecer. Para poder escapar aos seus ferozes perseguidores, haviam decidido cobrir-se de pequenos paraquedas, prontos a salvaguardar e a resgatar as sementes e todas as preciosidades nelas guardadas. Um dia, todos eles seriam largados para espalhar, em lugares longínquos, a história de gerações de germinação, floração e frutificação. O voo libertá-las-ia. E o mundo ficaria ao seu alcance para que a história não fosse interrompida. – As sementes estremeceram com a visão que tiveram. Haviam aberto, um pouco mais, os seus olhitos. Confiantes nos seus paraquedas, prosseguiram viagem.

As meninas estacaram. Era-lhes impossível continuar a escoltar os pequenos paraquedas. Já mal os distinguiam. Eles seguiam o seu curso. E elas também: voltar para casa antes que os seus pais ficassem preocupados com a sua ausência.

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ANA SANTOS, a gaivota
A vida fez com que ousasse pegar numa caneta e num caderno e nele viajar pelo mundo das palavras escritas sonhadas. Primeiro a medo, depois com menos receio, deu por si a relembrar-se do prazer que já em criança sentia pela escrita. Com uma licenciatura em Físico Química, não causará estranheza que a natureza seja o seu porto de abrigo. Adora estar em contacto com a natureza e é nela que encontra algumas respostas para os seus desassossegos, sem se sentir culpada, mas sempre abraçada.