O vento e o papagaio

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Fotografia © Mikhail Vasilyev | Cartaz © Laura Almeida Azevedo

O vento soprava voraz e eram poucos os que davam conta da sua presença. O vento sentiu saudades dos tempos em que os homens saíam à rua, com o seu respeitoso chapéu. Já teria atirado ao chão os suficientes para não se sentir ignorado daquela maneira. O vento soprou e experimentou assobiar, mas o que se ouviu afastou, a passo apressado, os que passavam. O vento rodopiou e elevou, a poucos centímetros do chão, algumas folhas que se entrechocaram para piruetar, em fuga atabalhoada para as alturas, de onde, um dia, tinham caído. O vento ondulou e deixou encrespados os cabelos cuidadosamente penteados. O vento balançou e desviou o baloiço da sua rota, assustando o menino. O vento fez um pé-de-vento e, não satisfeito, num gesto impulsivo, soprou de rajada e as cabeças voltaram-se para o chão, só para não o enfrentar. – Fracos – sentenciou o vento, quando não o olharam nos olhos. O desânimo que o assaltava, deixava-o entristecido, mas, vento como era, estouvado, na sua forma de agir, e movido pela impulsividade, transformou-se num centro de altas pressões. E o peso do mundo assentou arraiais sobre ele.

Não foi de ânimo leve que se dispôs a enfrentar o peso do que lhe chegava de modo tão intenso. Apercebendo-se do perigo, desejou não recear a intensidade do que ameaçava estancar as suas partículas de ar. O seu coração, feito sorvedouro, durante tanto tempo, não queria mais permanecer na turbulência. Aceitou o que receava e nem, por momentos, se surpreendeu com o peso que o tomava, deixando sem reação as suas lindas partículas de ar. Pela primeira vez, em muito tempo, decidiu não ripostar. E deixou-se imobilizar. O cansaço que acusava não lhe deixou espaço para desfazer o que chegava. Sem outra alternativa, sentiu. A dor alucinante. Sentiu o que não queria. Quis fugir. Da dor. Agoniante. O remoinho crescera e a força que lhe dava vida roubava a sua capacidade de discernimento. Para escapar, apenas a quietude o podia salvar. Depois da tempestade, vem a bonança. Não havia de ser diferente, desta vez. Recusou-se a mover. Já decidira que não ia mais fugir. Queria senti-la. A dor. De todas as perspetivas, de todos os ângulos, de todas as cores, com todas as formas que assumia. Logo se veria quem seria o mais forte. Sentir. Por completo. Para que nada restasse quando a paz se instalasse.

O vento amainou. Sentia-se cansado de tantos combates. Esgotara as táticas que aprendera e desenvolvera, ao longo da sua existência. Necessitava de serenar cada uma das suas pequeninas partículas de ar. Devia-lhes esse cuidado. Ainda não sabia muito bem como fazê-lo. Fora vento, toda a sua vida. Serenar não era, propriamente, o estado mais familiar de ser. Sempre fora efusivo, abraçando tudo o que encontrava à sua passagem; a maioria escapava-se-lhe, como se receassem o contacto, enquanto outros, contagiados pelos seus modos calorosos, embarcavam na viagem. Adorava expandir-se pelos caminhos que criava, para se deixar deslumbrar com o mundo que não conhecia. Agitado, quando a calmaria insistia em demovê-lo das suas incursões, o vento enchia o peito de ar e desafiava-a. Inconstante porque, todos os dias, as suas particulazinhas de ar lançavam-se em voltas e reviravoltas nunca antes experimentadas; e o que ontem resultava num passo de dança, hoje, podia ter um resultado catastrófico. Ousado, quando crescia, em si, a vontade de experimentar novas formas de se lançar ao espaço, em voos nunca dantes experimentados. Inspirou e expirou. De repente, o mundo parecia-lhe tão grande e as suas partículas, sentiram-se infinitamente pequenas. Suspensas no espaço, deixaram-se ficar sem nada aspirar. Inspirou e expirou.

Um assobio que não era o seu suou, bem perto. Olhou para o lado. As cores que viu fê-lo duvidar da sua sanidade. Teriam sido excessivas as doses de Sol que o atingiram, perguntou-se o vento. O vermelho berrante, que tinha diante de si, feria-lhe os olhos. O azul misturava-se-lhe e, sem o disfarçar, competia com o azul claro do céu. Outras cores misturavam-se em dobras cintilantes que o deixavam estonteado. O vento sentiu-se fora de si. A folha de papel colorido, com fitas vestidas de laçarotes, balançava, à sua frente, num movimento que o desafiava para uma dança de salão vienense. O papagaio mantinha-se dentro dos limites impostos pelas mãos do rapaz que o segurava, decidindo quão longe o papagaio poderia voar. O vento soprou afável, e o papagaio agitou-se. Subiu um pouco mais alto, quanto o fio o permitiu. E aí deixou-se estar num balanço insinuante. O vento aceitou o convite e ambos iniciaram a dança. Ora deslizavam, ora giravam, sem nunca perder o equilíbrio, gerando movimentos suaves que ondulavam graciosamente. E, sem interrupção, tudo se repetia, de novo. O vento esqueceu-se, por momentos, das suas dores.

O vento soprou, desta vez, com maior intensidade. O papagaio rodopiou e o rapaz, que o segurava, atrapalhou-se, quase tombando. Não parecia satisfeito com aquela investida. O papagaio não apagou as suas cores apesar das arriscadas manobras. Continuava a oscilar, embora não lhe fosse permitido chegar mais além. O vento, apercebendo-se da delicadeza da situação, moderou o seu sopro. O papagaio fê-lo lembrar-se da criança que não se cansa de repetir aquilo que tanto gosta de fazer. O papagaio não voava. O papagaio apenas subia mais alto. E, lá bem alto, não lhe permitiam que voasse. Apenas se agitava, de um lado para o outro, da frente para trás, de trás para a frente, intercalando piruetas extraordinárias. Tudo sob o controlo de duas mãos que o dirigiam, entre limites bem definidos. O vento pensou que aquele papagaio vivia iludido. Podia ter as melhores vistas, mas não voava. As cores mais vistosas que alguma vez vira, mas que não refletiam o brilho natural do voo. O vento soprou. Não era, por isso, que desejava a queda do papagaio.

Inspirou. Expirou. Inspirou. Expirou. Sem se conseguir conter, sentiu-se a balançar. Para um lado, e para o outro. Suave. Já não lhe importava quem por si passava e o efeito que causava. Estava enfeitiçado pelo seu balançar. Se não reparavam nele é porque não tinha desenvolvido a sensibilidade para admirar tamanha grandeza. Ele precisava de reconhecê-la, de uma vez por todas, e torná-la maior. Assobiou. E o som que ouviu arrepiou as suas pequeninas partículas de ar, com toda a emoção que em si cresceu. Rodopiou, e a visão que teve desfez o peso que sobre si recaía. Ondulou e o mar, que nele se abriu, deixou-o a boiar, sob o céu como limite. Tão perto de si, voltou a reconhecer o seu balanço. Era único. O papagaio, aprisionado nas mãos do rapaz, descera, conformado com o seu destino. Escolheu as cores garridas e isso bastou-lhe. O vento escolheu harmonizar os seus balanços. Descobrira a cadência que lhe permitia viver sereno, lá nos altos, sem se deixar levar em correrias loucas. Gostava daquele modo de estar. Leve, tranquilo, reconciliado consigo mesmo. Livre.

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ANA SANTOS, a gaivota
A vida fez com que ousasse pegar numa caneta e num caderno e nele viajar pelo mundo das palavras escritas sonhadas. Primeiro a medo, depois com menos receio, deu por si a relembrar-se do prazer que já em criança sentia pela escrita. Com uma licenciatura em Físico Química, não causará estranheza que a natureza seja o seu porto de abrigo. Adora estar em contacto com a natureza e é nela que encontra algumas respostas para os seus desassossegos, sem se sentir culpada, mas sempre abraçada.