O abismo

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Fotografia © Pixabay | Cartaz © Laura Almeida Azevedo

Todos achavam que ela era feliz. Ela tinha tudo, diziam eles. Era uma fase, diziam. Logo iria passar. Mas não passou. E assim, de repente, tudo mudou.

O mundo que ela tão bem conhecia desapareceu, mas não para os outros. Apenas para ela. Para todos os outros tudo continuava igual, a vida fluía, a vida… dos outros. Ela já não tinha vida. Tinha-se perdido aos poucos juntamente com o seu eu. Ela enfraqueceu. Foi sendo consumida pelos seus erros e pelas partidas da vida. Foi sendo envolvida num manto de sofrimento e de impotência.

Os dias tornaram-se todos iguais, gelados, sombrios, sem vestígios de cor, preenchidos de solidão, e onde antes batia um coração cheio de amor foram aparecendo camadas de gelo. Ela deixou de conseguir olhar nos olhos das pessoas, para que ninguém a lesse por dentro. Ela deixou de saber sorrir, deixando-se arrastar pelo tempo que nunca para. Ela quis mudar o rumo das coisas, mas algo negro a impedia, como uma corrente que teimava em apertar, cada vez mais, sempre que ela tentava. Ela deixou de ter forças para tentar.

Um dia, sem aviso, ela caiu. Não teve como se segurar. Bateu fundo, e doeu tanto. Cada pedaço seu se quebrou, até não restar senão uma poeira difusa de fragmentos de algo que, em tempos, pertenceu a uma vida. Antes da vida ter caído no abismo, ela tinha-o a ele. E ele sabia que ela era cheia de amor por debaixo de toda a escuridão e gelo que a tinha envolvido. Ele sabia-a da mesma forma que se se sabia a ele mesmo.

Eram parte um do outro. Sempre iam ser. Pertenciam-se. E, enquanto ela sofria, também ele morria um pouco mais a cada dia.

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HELENA ISABEL, a misteriosa
Nasceu em dezembro de 1983. Diz-se uma «exploradora da vida». Gosta de ler, de escrever e de pintar. Não da pintura dos guaches e dos pincéis. Mas da pintura com as palavras. É apaixonada, irreverente e sensível a tudo o que a rodeia. Prefere um segundo de realismo a uma eternidade de sonhos.