Quando a vida nos obriga a parar

677
Fotografia © Carina Mauricio | Cartaz © Laura Almeida Azevedo

08/07/2017

Estou com a amigdalite há cinco dias.

Chegou sem aviso, sem sintomas leves e levou-me de imediato à cama. Febre, suores, arrepios, tensão baixa, tonturas, garganta completamente tapada, sem conseguir comer. Não bastou uma ida ao hospital, pois a toma do antibiótico não foi suficiente. Continuava igual. Aliás, pior porque já nem a medicação conseguia tomar. Por isso, tive que voltar, para levar uma injeção de penicilina. No dia seguinte, senti-me melhor. Depois, continuou a luta a tentar levantar-me sem desmaiar, comer sem vomitar…

Não tem sido fácil.

Mas não é a doença, em concreto, que me traz a este texto. E, sim, o porquê da doença. O porquê de me ter levado tão abaixo, que nem escrever conseguia. Nem escrever, nem ler, nem falar, nem me levantar, nem comer. Sem paciência para nada.

Sim, a doença foi alguma corrente de ar, excesso de frio que apanhei, algum ar condicionado, as mudanças bruscas entre o calor de dia e o frio à noite. Pode ter sido um destes fatores ou todos juntos. Mas eu raramente estou doente. Quando estou, nunca é nada de grave. E nunca me levou à cama.

Isto foi um aviso da vida. A vida a obrigar-me a parar. Porque, eu admito, não tenho respeitado as minhas necessidades nos últimos tempos. Não tenho cuidado de mim. Talvez, pela primeira vez na vida, tenha acumulado cansaço excessivo, stress e nervosismo, má alimentação e sono deficiente. Não tenho cuidado de mim nem fisicamente, nem psicologicamente, nem espiritualmente. E comecei a ter sinais como falta de energia, que já me tinham levado a pensar ir ao médico fazer umas análises. Obviamente que, reunindo todos estes fatores, o que poderia ser uma coisa simples levou-me completamente abaixo.

Nós não somos de ferro. Não somos invencíveis. Não queremos parar um minuto porque não podemos. Há sempre mil coisas que fazer e em que pensar. Então, depois, quando nos vemos numa cama, impotentes, aí, sim, cai-nos a ficha e realmente pensamos que estava tudo errado. Foi esta a lição que aprendi depois de dias de sofrimento. Sim, para mim foi isto. Uma amigdalite não é nada demais, eu sei. Mas foi o estar sozinha, cheia de dores, sem força para nada — engolir um comprido me fazia as lágrimas vir aos olhos —, a vomitar até a água que bebia, com febre dias seguidos, em que não queria que os meus amigos me vissem assim, porque não é assim que sou. Debilitada, incapaz, impotente. (Ainda assim, um muito obrigada a eles por tudo o que fizeram por mim.)

Este acontecimento é uma lição para mim e para quem se revê neste papel de super pessoa. Que acha que consegue fazer tudo, que pensa em tudo e todos, exceto em si. Temos de parar e cuidar de nós. Do nosso corpo, do nosso sono, da nossa alimentação, do nosso bem-estar físico e psicológico. Porque, se não formos nós a ter essa atitude, a vida encarrega-se de nos obrigar a parar.

Por favor, cuida-te!

Porque a nossa saúde é o mais importante.

Comments

comments

PARTILHAR
Artigo anteriorMalabarista de sonhos
Próximo artigoAgora, sorri e vive!
CARINA MAURÍCIO, a fotógrafa
É budista e conservadora-restauradora. É de riso e choro fáceis. Tem tanto de sensível, quanto de corajosa e lutadora. Adora fotografar, jogar ténis e viajar. Viciada em comida, é fã de comida italiana. Gosta de dormir, de café, de chocolate. Dançar? Pode ser a noite toda. Mas também gosta de ficar na ronha, em casa, entre filmes e pipocas. Adora o som da chuva a cair no inverno e o som do mar em dias de verão. Campos floridos enchem-lhe o olhar, assim como as cores das folhas do outono. Apaixona-se facilmente e é uma apaixonada pela vida. Uma geminiana pura.