Malabarista de sonhos

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Fotografia © Alex Blăjan | Cartaz © Laura Almeida Azevedo

Vejo os sonhos a escorregarem-me das mãos. Sinto o cansaço permanente de conjugar uma vida do «tem que ser» com a vida do «gostava que fosse».

Esta coisa de tentar equilibrar a vida e os sonhos é digna de malabarista. Só um artista circense, bem treinado, para conseguir segurar tantos sonhos no ar sem que se estilhacem no chão como se fossem de vidro.

Por mais que tentemos equilibrar estes frágeis sonhos, muitos escapam-nos das mãos. A realidade mantém-nos de pés fincados no chão e dificulta-nos, assim, o equilíbrio. Não nos deixa ajustar o corpo aos elementos, às condições externas e, por isso, é tão difícil segurá-los bem.

O pior é quando os temos que deixar cair. Às vezes, tem que ser ou, pelo menos, é o que achamos na altura. Deixamo-los cair porque a vida obriga, não porque nos mostrou que os nossos sonhos afinal não eram aqueles. Deixamo-los cair porque temos medo, porque, se os agarrarmos, podemos perder o pouco que temos. E temos mais medo de perder o pouco que temos, do que vontade de arriscar em obter mais.

Mas ter que deixar cair os sonhos é revoltante. Estou cansada de os ter que deixar ir. Cansada de manter o equilíbrio entre estes dois mundos tão distintos. O peso da realidade desequilibra-me o corpo. Os sonhos fogem-me das mãos, despencam do ar como se de repente a gravidade da vida os puxasse de vez para a terra. E é vê-los resvalar pelo chão, a correr para uma valeta imunda qualquer até se perderem de vista.

Sou malabarista de sonhos. Já me sobram muito poucos no ar e já nem aos que sobram me consigo segurar. As minhas mãos deveriam ser mais ágeis, mas falham-me. Faltam-me forças para os manter no ar por muito mais tempo. Estou a perdê-los pelo caminho. É verdade que fui encontrando outros, mas em menor número dos que perdi, e muito diferentes também. Se é porque são mais razoáveis, se é porque à medida que nos vamos conhecendo, eles reajustam-se a nós, ao nosso ser, não sei. Talvez tenha passado a acreditar menos.

O pior é que já não vejo o mundo com os mesmos olhos de antes. Já não os tenho. Já não encontro sonhos. Já não os enxergo.

Sou malabarista de sonhos e receio o dia em que vá baixar os braços de vez, que me renda à vida e os deixe cair a todos. Entrego-lhos para que os guarde longe de mim, longe do coração, até esquecer que alguma uma vez os tive.

Deixem-me sair deste circo do real. Deixem-me sonhar. Deixem-me criar. É só isso que peço. Aos outros sonhos, já não vou a tempo de os apanhar.

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ANA PEREIRA, a inquieta
Nasceu numa noite estival, mas tem alma outonal. Convive com os números, mas encontra refúgio nas palavras. Aparenta serenidade, mas governa-a uma mente deveras inquieta. Se lhe perguntarem, é assim que se define a si própria. Aliás, estas foram palavras dela.