Queria-o sem saber como, nem porquê

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Fotografia © India Tupy | Cartaz © Laura Almeida Azevedo

Ela não o conseguia definir. Tentava-o repetidamente. Escrevia-o em frases curtas. Relia-o. Trocava-lhe a pontuação porque a achava demasiado complicada para aquilo que eles eram. Riscava-lhe os exageros. Reproduzia-o em cada linha para, logo a seguir, a apagar por a achar insuficiente.

Ele era ainda um conceito vago no fundo da sua mente agitada. Recordação viva de um outro tempo, em que a vida corria mais devagar, e a distração a impelia em direção contrária. Na memória restavam-lhe resquicios ténues de conversas vagas, rápidas demais, e que na memória lhe gravaram apenas o desenho do seu sorriso.

Queria escrevê-lo na tentativa de o entender em si. De situá-lo na sua vida. De lhe colocar um papel que conseguisse descrever em palavras bonitas. Tornar tangível aquilo que lhe escapava à racionalidade.

Não lhe sabia os porquês… Não sabia contar a sua história… Espantara-a o seu empenho. A certeza de o querer viver a uma velocidade que a deixava tonta.

Assustava-a a consciência clara de que o desejava assim.

Queria-o devagar. Com a languidez de quem sabe saborear.

Queria-o sem saber como, nem porquê. Percebia a forma de toda a sincronia que os envolvia, mas não se atrevia a questionar-lhe o conteúdo. Os porquês atrapalhavam o que o corpo mostrara ser fácil. Natural. Intenso na certeza de uma sintonia perfeita.

Queria-o sem expetativas. Sem exigências que não as que a alma faz àqueles a quem te ligas. Queria-o sem predefinições. Sem ligações mornas. Sem rotinas profundas.

Queria-o no fogo em que queimavam os dois. Queria-o sem mapear feridas. Queria-o na sua essência, a que a tinha seduzido.

Ele permanecia nela muito tempo depois de ter partido. O toque quente definia-lhe cada curva. O caminho que as mãos tinham percorrido estava ainda demasiado quente. O sabor dos beijos trocados ainda demasiado marcado. A concentração fugia-lhe com rapidez quando ele a voltava a tocar. Sem estar presente. Quando o arrepio que sentia trazia de volta o encaixe dele em si. O ritmo certo de respirações ofegantes. O som do extâse de ambos. A confirmação de que, em clichês repetidos, tantas vezes há verdade e nada, assim tão certo, acontece por acaso.

Sabia que podia fugir. Desprender-se de tudo o que a levava até ele. Conhecia-se o suficiente para saber que o que assusta está mais seguro guardado. Que assim perde força.

Imaginava-se a escrevê-lo com pormenores para o poder encerrar. Vê-se a recordá-lo intensamente uma vez mais. A descrevê-lo ainda sem medos, sem complicações. A senti-lo uma última vez todo em si. Profundo. Totalmente presente. Perdido com ela na leveza que é deixar fluir. Deixar que seja apenas o instinto a comandar. Sem vozes a sussurrarem riscos e temores. Visualizava-se a fazê-lo, enquanto rabiscava em folhas soltas o dialeto dos encontros inesperados. Mas sabia que, assim que o fizesse, deixava-o ir.

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MIRIAM AFONSO, a Mi
Escorpiã até ao tutano. Bem disposta e de sorriso fácil. Apaixonada pela vida e pelos outros. Prefere frio ao calor, chocolates a gomas e livros a sapatos. «Os Maias» são um bocadinho como a bíblia lá por casa e «O Principezinho» povoa cada espaço vazio nas estantes. É vizinha de um dos bairros mais bonitos do mundo - o do Amor - e escreve para se encontrar.