O meu primeiro amor

Texto vencedor | Desafio de escrita: «O primeiro amor»

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Fotografia © Pixabay | Cartaz © Laura Almeida Azevedo

O meu primeiro amor foi um amor platónico. Talvez tenha sido por essa razão que foi aquele que demorou mais tempo.

Tudo porque esse amor vivia só e unicamente alimentado pela minha ilusão. Confortado pelos abraços que dávamos apenas nos meus sonhos. Todos os dias acordava com ele e adormecíamos sempre juntos. Era meu a toda a hora e ninguém o sabia. Não precisava de o dividir com mais ninguém.

Gostava de adormecer, enrolada nos cobertores onde estavam desenhadas as imagens dos meus sonhos. Ficar ali, a sonhar que o procurava e que ele me desejava. O sono passava-me a mão pela pele, tapando-me com a ilusão de que eu corria ao seu encontro num céu, onde as nuvens pareciam algodão e onde ele se escondia para que eu não o encontrasse. Tornando assim o nosso amor numa enorme diversão.

Era essa a minha maneira pura e ingénua de amar. A menina que ainda mantinha sonhos cor-de-rosa com os príncipes encantados que encontrava na rua e, depois, fazia com eles as suas próprias histórias, que tinham sempre um final feliz.

É tão bom ver o mundo do lado de fora. Acreditar que nesse castelo existem princesas e príncipes encantados. Viver nesse mundo longe da confusão. Onde eu procurava o amor e onde ele me encontrava. Onde ele era meu e ninguém nos separava.

Sentir que o amor é livre e confortável é viver em felicidade. Acreditar que ele é a almofada onde os meus sonhos se encostam. Que é a música que escuto. As poesias que ele me escreve com o seu sorriso, sem que sejam precisas palavras, nem que as folhas corram o risco de ficarem manchadas pelas minhas lágrimas.

Talvez tudo seja um sonho. Mas era essa a magia que eu criava sobre a vida. O amor eram duas pessoas apaixonadas, num mundo onde tudo lhes parecia belo e maravilhoso.

O meu primeiro amor foi um amor que nada me prometeu. Mas também aquele que nada me negou. Tudo quanto lhe pedi ele fez. Nunca me falhou. Não me tocava, mas eu sentia-o em mim todos os dias, todas as horas e minutos, sempre que eu queria.

Há coisas que nos parecem impossíveis e acabaram por acontecer. Tudo porque o que tem que ser, inevitavelmente, vai ter que acontecer. O que nos estiver destinado vai acontecer. Sem que sejam precisas magias, ajudas divinas ou teorias imaginárias, porque, quando menos esperarmos, tudo se conjuga para aparecer nas nossas vidas.

Este foi o único amor sem princípio nem fim. Não lembro quando começou e creio que ainda não terminou. Vai-se perdendo no tempo da minha vida. Vai-se diluindo nas desilusões que vou armazenando na minha alma e que fazem com que cada vez tenha menos capacidade para sonhar.

Por tudo isso, continuo a sentir-me apaixonada por ele. Sem que saiba sequer quem ele era exactamente. Teria por certo algumas parecenças com todos os outros que, depois, passaram pelas minhas mãos e que caminharam lado a lado com as minhas emoções.

De todos aqueles que já tocaram o meu corpo, este foi o único que terá apenas comunicando em silêncio com a minha alma. Vivemos juntos tantas loucuras. Imaginadas só por mim, mas sempre senti nele a calma e paz que só o primeiro amor poderá deixar em nós.

Foi, é e será o meu primeiro amor, aquele que nunca vou esquecer e onde volto de cada vez que o meu coração precisa de se esquecer de algo e não vislumbra, no seu horizonte, umas mãos que lhe dêem emoções de um modo mais profundo.

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ANGELA CABOZ, a miúda gira
Nasceu em Tavira há 49 anos. Desde a adolescência que é uma apaixonada pela leitura, pela escrita, pelo cinema e pela música. Escreve sobre sentimentos e, nas palavras, reflete a maneira de ver e de sentir o mundo. Em 2014, realizou um sonho: a publicação do seu livro «À procura de um sonho». Desde então, tem participado em várias obras coletivas.