A mais bela das harmonias

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Fotografia © Toa Heftiba | Cartaz © Laura Almeida Azevedo

Tum, tum, tum…

Acordo com o bater do teu coração. O sobe e desce do teu peito, desencadeado pela tua respiração, embalou-me. Adormeci sobre a almofada mais aconchegante de todas. O calor da tua pele aquece-me o corpo e o teu cheiro inebria-me os sentidos.

Não fui a única a deixar vencer-se pelo sono. As tuas pálpebras repousam sobre os teus olhos. Inspiras, expiras. A máquina continua a trabalhar enquanto o seu corpo descansa. Mas trabalha, numa cadência pacífica, harmoniosa. O teu coração sabe que não tem que correr. O meu também. O ritmo de ambos encadeia-se e acompanham o andamento do outro.

Levaram anos para entrar em sintonia, os nossos corações. Cruzaram-se tantas vezes, por estas ruas, mas não se ouviam. A pauta que seguiam não era a mesma. Os compassos eram dissonantes. Não havia harmonia, tocavam desafinados.

Mas, um dia, um qualquer compositor desconhecido desta vida decidiu intervir e imprimiu o seu cunho a ambas as músicas. Conjugou diferentes notas, criou novos tons e deu à velha composição musical novos arranjos. Até ao dia, em que as diferentes pautas musicais se ajustaram. Então, um maestro, que é a vida, ensaiou aqueles corações até aprenderem de cor a nova música. As notas acertaram-se. A melodia, tocada em cada coração, passou a ser encantadora e suave.

O que antes era ruído, agora, ouvia-se com agrado.

Quando voltaram a encontrar-se, estes corações, finamente, ouviram-se pela primeira vez. Reconheceram-se. E a harmonia tocada pelos dois deu gosto ouvir. Tocou afinada, mas só os dois a ouviam e mais ninguém.

Estes corações, que um dia a vida tentou calar, que fez por fazê-los desistir de procurar, agora encontravam as notas certas de uma pauta única. Após tanto tempo. E só levou todo este tempo, porque procuravam em frequências diferentes. Mas a demanda valeu a pena. Um dia sintonizaram-se, um ao outro, e perceberam que, por razões que ainda que não entendiam, agora tocavam juntos. O que havia mudado?

Agora, outro maestro, que era o amor, regia esta pequena orquestra de dois corações na mais bela das harmonias. A do amor, claro.

O meu coração voltou a tocar. Voltou a cantar. Voltou a ouvir.

O meu e o teu.

Tum, tum, tum…

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ANA PEREIRA, a inquieta
Nasceu numa noite estival, mas tem alma outonal. Convive com os números, mas encontra refúgio nas palavras. Aparenta serenidade, mas governa-a uma mente deveras inquieta. Se lhe perguntarem, é assim que se define a si própria. Aliás, estas foram palavras dela.