Rendi-me às palavas

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Fotografia © Ryan Moreno | Cartaz © Laura Almeida Azevedo

E se eu não me tivesse rendido à magia das palavras? Se não tivesse escutado a voz da minha alma? Se tivesse virado as costas ao que nasceu comigo? Se, tantos “ses” que me limitaram durante anos. O medo de expor os meus sentimentos. O receio de que não soubessem ler-me. Os fantasmas que adormeciam comigo, e que me convenciam de que as palavras que existiam em mim deveriam sempre viver na sombra do que eu sou.

Mas, se metade de mim era medo, a outra metade sonhava ter ousadia para colocar nas palavras todas as emoções que despertavam o meu coração. Metade de mim queria ter atrevimento suficiente para mostrar ao mundo tudo o que eu sentia. Sonhava dar asas ao sonho que o criador fez nascer comigo. A outra metade escondia-se da realidade.

Foi sempre assim. Escrevia e libertava tudo o que me oprimia a alma. Soltava a revolta que poucos conheciam. Tantos que partilhavam comigo anos de vida, sem conhecer essa parte de mim. A revolta da miúda tímida que se escondia na máscara do medo. A vida foi-me aos poucos empurrando para a porta real do mundo. Deixava-me entre a muralha e a ponte. Entre o ser e o esconder o que era.

Como eu não me decidia, como não cortava a amarra que me prendia, a vida enviou-te a ti. Tu, o D. Quixote que lutava contra os moinhos. O D. Quixote que era companheiro dos seus próprios fantasmas. Aquele que, tantas vezes, se sentia perdido, na mesma estrada em que eu caminhava.

E eu, a miúda insegura, senti o teu olhar maroto sobre a mulher que não queria admitir quem era. O teu olhar desenhou linhas de sedução na minha mente. Até o teu sorriso abriu caminhos que o coração se negava a ver. Tudo em ti libertava algo que se prendia em mim. A miúda despiu-se de preconceitos, passeou o seu atrevimento pelas ruas, onde antes passava com o olhar fixo no chão que pisava. Nunca mais o seu olhar se perdeu na linha dos seus pés. Passou a fixar os olhos na linha do futuro e o coração só queria aproveitar cada momento que a vida lhe oferecia.

Dei-me conta de tanta coisa que tinha deixado para trás. Acelerei o meu passo para tentar viver tudo a que tinha direito, sem ter medo do olhar do mundo.

E foi aí, que entraram em cena as palavras, que me acompanhavam desde sempre. Agarrei o dom que havia em mim e soltei o que estava adormecido. Lancei no mundo, mesmo sem rede e não temendo a queda.

E tu, com a tua garra, tentavas arrancar-me ainda mais. Querias ver-me no cimo da montanha. No lugar onde todos me pudessem contemplar. Querias que eu voasse com as minhas próprias asas. Sem medo de nada. Empurravas-me para a vida e ficavas ao largo a ver-me crescer.

Hoje, aqui estou eu. O medo já não mora em mim. As palavras são minhas e as interpretações de quem as lê. As histórias nem sempre me pertencem, mas a mão que as escreve sente-as com o coração.

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ANGELA CABOZ, a miúda gira
Nasceu em Tavira há 49 anos. Desde a adolescência que é uma apaixonada pela leitura, pela escrita, pelo cinema e pela música. Escreve sobre sentimentos e, nas palavras, reflete a maneira de ver e de sentir o mundo. Em 2014, realizou um sonho: a publicação do seu livro «À procura de um sonho». Desde então, tem participado em várias obras coletivas.