Nem tudo se compreende. Apenas se sente!

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Fotografia © Pixabay | Cartaz © Laura Almeida Azevedo

— Hoje, sinto que estás diferente. O que tens?

— É tristeza…

— Tristeza? Porquê?

— Dói-me a alma!

— A alma? Que dor é essa?

— É a que nos faz verter lágrimas que nos queimam as faces, nos embargam a voz, nos sufocam…

— Doença esquisita! Como a apanhaste?

— Não é doença. É sofrimento. Não se apanha. É provocada.

— E agora? Nunca vais ficar bem? Não voltas a ser na mesma?

— Também eu não tenho respostas… Apenas interrogações se acumulam e as ideias confundem-se. Tenho que compreender onde está o mal. Tenho que encontrar o bem… Começo a ser invadida por sentimentos que não desejo.

— Então, que vais fazer?

— Quero ficar só. Quero fechar os olhos e sentir o abrigo de um sonho. Quero ouvir o meu coração. Quero paz e sentir alguma tranquilidade.

Não está a ser fácil. É grande a inquietação que se apoderou de mim. Estou confusa. Talvez desorientada. Escuto aquela voz dentro de mim.: «Sossega. Espera. Deixa passar o impulso do momento…»

— Impulso? O que é isso?

— É o que nos faz errar…

— Porquê?

— Porque nos leva pelo mais fácil. Deixa entrar a ira, o rancor… Como que ficamos irracionais. Ignoramos o amor…

— Não estou a entender. Agora, também entra aí o amor?

— O amor tem que estar sempre presente. É a nossa melhor segurança, o nosso melhor conselheiro… Afinal, porque somos tão magoados pelos que tanto amamos? Sim, é porque amamos que sentimos a dor, a mágoa!

— Bem, agora não te entendo. Se amamos, devemos estar felizes!

— Na verdade, nem sempre é assim. Não somos perfeitos. Por vezes, conseguimos magoar os que amamos e sofremos atrozmente quando amamos os que nos fazem sofrer.

— Agora, parece-me que cada vez entendo menos…

— Também não é para se entender. Apenas se pode sentir!

E esse sofrimento que nos provocam tem que ter uma resposta.

— Então, vá lá, responde! Para de sofrer!

— Sim, vou responder. Não vai ser fácil. Terei que dizer o que nunca devia precisar de ser dito. Irei causar, sei lá, talvez indignação… Será, agora, a minha vez de fazer sofrer os que amo? Não tenho disso a certeza. Até é provável que as minhas palavras sejam recebidas com indiferença ou desprezo…

Sei que devo ser verdadeira comigo e com os outros. Sei que preciso transmitir o meu sentir. Fá-lo-ei!

Tudo aquilo que o nosso coração gravou com amor não desaparece. Nunca! Todos aqueles que aprendemos a amar de verdade serão amados para sempre.

Para mim, o ódio e a indiferença são apenas escudos que se usam quando pensamos que eles nos protegem do sofrimento. Sim, direi tudo que precisar de ser dito sem esquecer que amo aqueles a quem me dirijo, sem deixar de os amar como sempre os amei!

— Decididamente… Não te compreendo!

— Volto a dizer-te: Nem tudo se compreende. Apenas se sente!

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Ela não é uma mulher rica. É, sim, uma rica mulher! É dona de um coração generoso, que já ultrapassou sofrimentos, mas também sabe muito sobre o amor. É sonhadora: os sonhos estão sempre lá e o seu percurso de vida foi-se construindo com a realização de muitos deles. Desafios? Sim, aceita-os com determinação e entusiasmo. E, como alguém disse, «às vezes, é uma caixinha de surpresas».