Já chega, mãe natureza! Aprendemos a lição

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Fotografia © Pixabay | Cartaz © Laura Almeida Azevedo

Assisti nos últimos dias, em silêncio, ao terror que está a assolar o nosso país. Em silêncio porque palavras teimavam em não sair. Presas pela dor que me estava a consumir. Em silêncio, a chorar, vi as imagens, ouvi as pessoas na televisão, li muitos textos que se escreveram. Em silêncio, a chorar! Sem saber o que dizer ou escrever. Angustiada e triste… A sentir-me impotente, inútil, pequena.

Não consigo imaginar o sofrimento dos que partiram, a dor dos que ficaram. Sei o que é sentir a dor da perda, daqueles que amamos. Mas não assim. Não desta forma. Não consigo imaginar o que é perder familiares, animais, bens pelos quais se lutou uma vida inteira, de forma tão inesperada. Porque a natureza se enraiveceu. E levou tudo o que apanhou à frente. Levou vidas, aldeias inteiras. Levou a esperança.

E de quem é a culpa? Tentam-se apurar responsáveis. Apontar o dedo a alguém. Porque alguém tem que assumir a responsabilidade de tamanha fatalidade. Eu acho que cada um de nós tem responsabilidade pelo sucedido. Todos somos cidadãos deste país. E todos temos deveres cívicos, todos temos a nossa pegada ecológica, todos temos uma parte de culpa. Todos sem exceção. Não são os políticos, não são os donos dos terrenos, não são os anormais que continuam a deitar lixo para o chão… Não interessa se a origem foi uma causa de maior ou menor dimensão. Não interessa! Para quê? De que adianta? Não trará as vidas que se perderam de volta. Não trará!

De nada vale apontar o dedo. Quero acreditar que cada um faz o melhor que pode e que sabe. Todos cometemos erros. E que os erros sirvam de lição. Porque há muito a aprender. É preciso tomar ação. Mudar mentalidades. É preciso fazer mudanças, urgentemente. Hoje, ao som da trovoada que ainda se faz sentir, depois do silêncio, apetece-me gritar: já chega! Apetece-me gritar à mãe natureza: «Já chega! Aprendemos a lição!» Assim espero eu. Esperamos todos nós.

Estamos todos a ajudar como podemos. Nisto somos um povo unido, cheio de compaixão. E os bombeiros, mais uma vez, estão a arranjar forças que pensavam não ter. Os nossos heróis, muitas vezes desvalorizados, de um coração gigante. Para eles as palavras nunca vão ser suficientes. Só um sentimento de gratidão profundo.

Para os que partiram, estou a orar pela vossa paz. Onde quer que estejam. Para os que ficaram, com lágrimas nos olhos, corações a sangrar, sem esperança…quero deixar-vos com esta frase do meu mestre de vida, que me alenta em tempos difíceis: “A pessoa que mais sofreu será a mais feliz. Experimentará a alegria da triunfante vitória, pois possui o direito e a missão de irradiar esperança e luz da boa sorte.” Muita força. Muita coragem. Estou a orar pela felicidade de cada um de vós.

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CARINA MAURÍCIO, a fotógrafa
É budista e conservadora-restauradora. É de riso e choro fáceis. Tem tanto de sensível, quanto de corajosa e lutadora. Adora fotografar, jogar ténis e viajar. Viciada em comida, é fã de comida italiana. Gosta de dormir, de café, de chocolate. Dançar? Pode ser a noite toda. Mas também gosta de ficar na ronha, em casa, entre filmes e pipocas. Adora o som da chuva a cair no inverno e o som do mar em dias de verão. Campos floridos enchem-lhe o olhar, assim como as cores das folhas do outono. Apaixona-se facilmente e é uma apaixonada pela vida. Uma geminiana pura.