Tudo ou nada

897
Fotografia © Ariel Lustre | Cartaz © Laura Almeida Azevedo

Nada fora apenas o que ficara. Derrotada, porque nada fora tudo o que, um dia, quis que não chegasse. Nada que não valesse a pena fora a promessa selada de que seria imediata a sua abolição, porque o coração é frágil e o tempo não perdoa. Mas o tempo assim o não permitiu e tudo se desfez em nada. Nada era tão pouco para tudo o que houvera sonhado. E a vida é demasiado valiosa para que os dias sejam feitos de nada. Entre tantos sonhos sonhados, nem um ficou de pé, e nada havia a fazer que revertesse o nada que fora tudo para si. Nada preenchia os seus dias, outrora, tão cheios de tudo. Arrependimento não era a palavra que queria para si. Preferia usar a coragem de nada esquecer, porque tudo fora verdade alegre e sentida.

Agora, que olhava para trás, nada compreendia, porque o vazio que a atingia era demasiado denso para descortinar tudo o que ficava mais além. Queria recuperar tudo e não queria repetir nada que não fosse autêntico. Queria a alegria, mas a tristeza destronava-a para que, dali a nada, o seu corpo vacilasse. Frágil. Era só uma questão de tempo porque a experiência, senhora de si, dizia-lhe que a força sempre imerge depois de tudo ficar reduzido a nada. Este era o tempo de viver, nada que não fosse a impotência que a dominava, para que o seu coração pudesse transmutar tudo o que, dentro de si, gritava com revolta. Queria tudo, mas nada era tudo o que permanecia em si. O seu peito doía com tudo o que o preenchia sem que nada fosse a razão de profundamente inspirar. Inspirar o que o vazio lhe entregava, sem nada se opor à sua expulsão. E nada era tão presente, como a possibilidade de tudo acontecer, sem nada esperar. Esperar tanto, para nada ser diferente de tudo o que almejava encontrar para si.

Nada deixava-a prostrada para tudo o vento levar sem resistência. Levar o que em si um dia ficara para, interiormente, a corroer até nada restar. Tudo o que sonhara não era nada que valesse a pena lembrar porque tudo acontecera para se demarcar da fantasia que tingiu os seus dias, deixando um borrão indissolúvel. Um dia, tudo faria sentido, diziam. Porém, esse dia tardava a chegar e nada era a única certeza que abraçava. O abraço, que fora tudo, mais do que o sonho que um dia sonhara, nada lhe deixara, para além da saudade. A saudade de nada que fizesse sentido, para além de tudo o que lhe fora roubado. A impunidade, sobre tudo o que a arrastara, era uma clara lembrança que nada deixara no seu coração rasgado.

Um coração que tudo acreditara, para nada ser nas mãos de palavras ocas que tudo ou nada deixaram para lembrar. Tudo o que chegou desalinhado aceitou. Nada sobrara que não fosse a dor de tudo ter sido em vão. Tudo lhe pareceu tanto, mas as luzes eram tão intensas e a cegueira inevitável e o desalento de não tocar foi tudo o que mais lhe doeu. Sentiu-se um tudo ou nada invisível. Tudo o que fora, nada floresceu inócuo para que resquícios da dúvida fossem somente uma miragem.

Tudo ou nada. Arriscou. Tudo. Feliz. Mas o azar ao jogo ditou a sentença e nada foi tudo o que ficou do que não planeara. Nada lhe oferecera a paz pela verdade que aspirara viver. Tudo a desacreditara sem que nada fosse suficiente para o céu alcançar. Tudo crescera assustadoramente, onde a luz era negra, para de tudo se apoderar sem quê nem porquê. Nada lhe roubou a esperança, e a fé foi tudo o que encontrou depois da triste demanda. Longe de imaginar que tão deplorável revés a conduzisse às alturas celestiais, rogou para que nada, que fosse mera ilusão, destruísse aquilo em que mais acreditava.

A fé era inabalável, não fosse tudo o que na sua vida constituía prova irrefutável de que nada do que, alguma vez, lhe acontecera tivesse ausente a solução que não conhecia. Não conhecia argumentos que coagissem, quem quer que fosse, à desesperança porque tudo o que não lhe fora destinado não era nada que falasse ao seu íntimo. Mistérios que não se atrevia a deslindar eram tudo o que bastava para se deixar seduzir pela vida que brotava tão perto de si. Só porque a cor estava ausente, deixar-se-ia abater. O preto e o branco transportam a nostalgia em tudo, porque nada é indiferente ao pulsar divino que expande o Universo em todas as direções.

Nada a faria baixar os braços porque tudo tem uma estação para acontecer. Uma estação, um tudo ou nada peculiar. Uma estação que lhe traria tudo o que mais precisava e desconhecia. Nada fora, nos primórdios dos tempos, o princípio de tudo. E, agora, nada seria diferente. Tudo era o que mais queria para que nada detivesse o ser que era único em si.

Comments

comments

PARTILHAR
Artigo anteriorEssas mãos
Próximo artigoEle voltará um dia [talvez seja tarde]
ANA SANTOS, a gaivota
A vida fez com que ousasse pegar numa caneta e num caderno e nele viajar pelo mundo das palavras escritas sonhadas. Primeiro a medo, depois com menos receio, deu por si a relembrar-se do prazer que já em criança sentia pela escrita. Com uma licenciatura em Físico Química, não causará estranheza que a natureza seja o seu porto de abrigo. Adora estar em contacto com a natureza e é nela que encontra algumas respostas para os seus desassossegos, sem se sentir culpada, mas sempre abraçada.