Eles olhavam-se, sem se verem

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Fotografia © Pixabay | Cartaz © Laura Almeida Azevedo

Eles olhavam-se, sem se verem. Era demasiado perigoso se o fizessem. Correriam o risco de descobrir no outro o que a todo o custo insistiam em negar. E a culpa era do sonho que não haviam esquecido, guardado secretamente no seu coração. O sonho de, um dia, voltar a amar. Mas eles olhavam-se e não se viam. E o sonho dececionado afastava-se devagarinho, deixando-lhes uma sombra de dor que enevoava o que tanto haviam desejado clarear. Como não, se eles olhavam-se sem se verem. Descuravam o princípio básico do amor: olhar para ver o sentir que não conhece as palavras que exprimam a verdade mais sincera e terna. Eram dois adultos que não percebiam nada de amor. Desejavam-no tanto, que o destruíam antes que pudesse crescer. Crescer livre, bondoso, gentil, alegre, companheiro, cúmplice.

As lágrimas saltaram, dissolvendo a dor que esmagava o coração desalentado com a derrota inevitável. Ele sentiu-se a emergir nas lágrimas que caíam desvairadas no rosto que ele gostava de afagar, porque só isso lhe oferecia o conforto de acreditar, momentaneamente, que ela estivesse unicamente para ele. E isso era tão mais triste que a tristeza dela. Ela não quis ver, embora o coração lho dissesse, a prova do desamor que ele lhe entregava. A dor que avassala um coração enamorado, que não merece ser desfeito em lágrimas sofridas, como as que ela deixava cair, mas apenas para com alegria cobrir os olhos de um brilho sereno e cristalino, capaz de refletir o que o amor não fala. Estar só num amor é uma agonia, quando o amado persiste em olhar, sem ver. Ele queria recuperar o sonho que, um dia, a vida lhe negara, mas o medo dominava-o de tal forma que prontamente se subjugava às imagens adulteradas da verdade que ela, cega, teimava em lhe entregar. No amor, caluniar o que é sentido é de uma crueldade atroz e tudo porque ele olhava sem ser capaz de a ver. Mas era ela a cega que se negava a enfrentar a afronta. E, cúmplice, olhava sem o ver. Ele dava liberdade ao seu coração para enredar-se em complexos labirintos que o deixavam perdido e despojado do mais singelo gesto amoroso. Agitado pelos seus medos, ele escolheu dar uma oportunidade ao descrédito a que votara a vida. O amor engrandece a vida, mas ele preferia sentir-se grande na descrença do que é simples e belo. Eles olhavam-se sem se verem.

Apesar da distância a que o tempo o colocara, ele revivia o seu sonho que, um dia, fora estilhaçado e cravava nela cada pedacinho, cuidadosamente guardado, numa atitude vil que o deixava transfigurado, indiferente à ferida que nela abria. Ele estava firme do seu propósito, resgatar o que um dia o maltratara. Ele distraía-se da crueldade que nela desferia, em golpes que só para ele eram justos — prova derradeira de que ele olhava, mas não a via. Ele olhou-a tristemente e, acometido de um breve vislumbre do amor que pensava, desfazia-se da sua arma de arremesso, repondo os seus cristais de vidro no lugar de sempre, para ciosamente os guardar e logo a envolver num abraço. Sincero. Ela acreditava tanto no seu abraço que ignorou os cristais de vidro, religiosamente guardados, apesar de ele não ser crente. Ela abraçou-o, esperançosa de que o seu calor fundisse aquele vidro que à mais pequena distração a esquartejava sem dó. Os cristais de vidro que ele insistia em colocar no pódio da vida, incapaz de lhes reconhecer as impurezas que a desvirtuavam, destituídos de brilho e cobertos de fendas que os trespassavam, conservavam a dureza que também era a sua, de cada vez que exibia cada pedacinho, qual deles o mais insignificante. Ele preferiu ignorar a maciez das arestas. A natureza já tinha feito a sua parte, enquanto ele preferia demarcar-se pela obstinação perante o que era apenas um fragmento de algo maior que já só existia na memória de um passado longínquo. Ele fazia investidas infrutíferas, numa tentativa tonta de dar lustre ao que era tão pequenino. Intransigente, ele lançava-lhe um olhar cortante, indiferente à dor que nela causava. Ela reduzira a pó os seus cristaizinhos de vidro. Sim, também ela os colecionara um dia. O caminho fora longo e árduo. Não pretendia deixar-se levar pela cegueira de atirar ao ar o que já não pertencia ao tempo em que os dois se encontraram. Ele ficara feliz por a encontrar e a felicidade dela não era menor. Enquanto ela atirara ao vento os seus pedacinhos de vidro feitos pó, ele segurava os seus para nela os cravar, não fosse atrever-se a ignorar o quanto já ele sofrera. Ele não a queria ver quando a olhava. Ele nunca seria capaz de a ver, enquanto a luz que a iluminava fosse a refratada pelas imperfeições dos seus preciosos cristaizinhos de vidro. E a sua convicção libertava-o do remorso pelas feridas que nela causava. E ela olhava sem ver como o amor pode transformar-se num desamor sem fim.

Em nome dos seus sonhos, ele duvidou tanto como ela foi capaz de acreditar. Naquele fim de tarde, a chuva caiu ensurdecendo o que ambos diziam, sem se ouvirem. As palavras eram derrotadas porque os olhos não mentiam. Deus quis fazer emergir o silêncio que ecoava sob aquela chuva imensa e afagar o homem e a mulher que eram incapazes de olhar para se verem. A chuva atingia o chão com uma firmeza e uma dureza que calava o que em cada um fervilhava. A chuva caiu sem vacilar, para ensiná-los a olharem-se sem reservas e a tomarem em si a coragem para seguirem o curso da água que escoava, sem receio pelo que lhe estava reservado, no caminho que se abria. Ambos seguiriam caminhos díspares para, um dia, se reencontrarem na imensidão do mar que tanto amavam.

A vida só podia ter cruzado os seus caminhos para acusá-los da sua distração; não repetir os erros do passado porque o único caminho que vale a pena viver é o da felicidade liberto de desamor. A aprendizagem era dura. Deixava-os destroçados em todo o seu querer. A água que caia do céu esforçava-se por aproximar aqueles seres perdidos nos seus sonhos que não dignificavam o amor, por mais que dissessem o contrário. A água acabou por silenciá-los abruptamente. E na ausência das suas palavras ficou o silêncio da tromba de água que sobre eles se abatia de modo doloroso, na esperança de arrastar, para sempre, a dor que lhes roubava a clareza do pensamento. Ela desejou correr ao lado daquela água que se movia de modo sinuoso, sem se importar com o que viesse a atravessar-se no caminho. O silêncio não corria e a sua permanência, apaziguava as suas almas que se definhavam em nome de um sentimento a que chamavam de amor. Não. Não pode ser amor, quando os olhos são incapazes de ver o que olham. O desamor que os unira duvidara até à exaustão. O desamor olhara sem ver a pureza do gesto. O desamor não ouvira o que o silêncio calara. O desamor usara a deslealdade para espezinhar a sinceridade que brotara espontânea. O desamor ferira sem compaixão. O desamor humilhara porque se abrigara na generosidade daquele que não esconde o que o outro não reconhece. O desamor usara a mentira para castigar. O desamor aceitara o sofrimento que a descrença provocara. E, sempre que o amor aceita o inferno da descrença, o sonho não fica. Nada fica, para além do desamor.

Os raios de Sol afastaram a chuva com o seu brilho metálico dourado e a terra agradeceu a calmaria que lhe devolvia a paz. A respiração da terra recuperava o ritmo compassado e fluido e o afago quente que dela exalava envolvia os que não se distraiam com o que no amor sempre permanece, independentemente do espaço ou do tempo: o olhar livre para ver o inquestionável.

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ANA SANTOS, a gaivota
A vida fez com que ousasse pegar numa caneta e num caderno e nele viajar pelo mundo das palavras escritas sonhadas. Primeiro a medo, depois com menos receio, deu por si a relembrar-se do prazer que já em criança sentia pela escrita. Com uma licenciatura em Físico Química, não causará estranheza que a natureza seja o seu porto de abrigo. Adora estar em contacto com a natureza e é nela que encontra algumas respostas para os seus desassossegos, sem se sentir culpada, mas sempre abraçada.